sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Alguém chamado Neto

Fazia tempo que sua vida se resumia em assistir o tempo se arrastar. Acordar passou a ser um fardo que o jovem escondia sob sua face tranquila. Vezes tinha tanto ânimo que era capaz de sorrir as mínimas bobeiras de um dia. Outras não queria sair de seu lugar, enclausurado pela sensação fugaz de um vazio que parecia se alimentar de sua energia. Fosse como fosse, parecia um corpo sem alma. Tinha os olhos fundos e espertos. Seu ar de cansado lhe oferecia traços de intelectualidade. Fazia dias que a barba crescia e que sua aparência não mais importava. Parecia estar vivendo num estado de semiconsciência, uma espécie de coma as avessas. Flagrava-se muitas vezes andando sem rumo pelos cômodos da casa. Ia do quarto para a cozinha, parava e nada fazia. Então sentava na sala e ligava a tv em qualquer canal. As imagens distraíam-no, muito embora ele já não fosse capaz de acompanhar as rápidas sequências que via. O rapaz estava desnorteado e sabia disso. Pensar numa solução lhe constrangia a pele, tudo apontava para um fim solitário. De alguma maneira, doentia talvez, ele desejava o fim. Ao mesmo tempo queria também viver. Para ele estar vivo era diferente de viver. Ou pelo menos diferente de viver em função de alguma coisa. Justamente isso o desprendia a atenção: viver em função de algo. Existia sempre um pormenor. Um detalhe não resolvido. Uma folha para assinar. Parecia que para ter vida precisava de aprovação. De fato precisava. Tinha plena noção do sistema do qual fazia parte, e em maior ou menor grau contribuía para ele. Falava de burocracia, mas era lá um burocrático. Metódico. Odiava se atrasar, pois afinal não tinha tempo a perder. Entendeu cedo que o tempo não pertencia a ninguém. Mesmo assim era pontual. A cada dia que nascia ele tentava fazer nascer em si a esperança. Buscava-se num autoconvencimento admirável. Muito me emocionei vendo esse jovem lutando contra seus próprios pensamentos. Entretanto, não demorava muito, logo tudo parecia gasto. De repente os objetivos passaram à hábitos. Estava sendo domesticado. Sua voz prendia, olhava para os lados e qualquer um que pudesse vê-lo incentivava isso. Preferiu, de uns tempos pra cá, ser uma sombra de si mesmo. Levantar o polegar num gesto de aprovação e sorrir, como se no fundo concordasse. Fingia paciência com aqueles que lhe fingiam atenção. Ninguém podia entendê-lo e ele não conseguia se expressar. Como eu queria poder dizer a ele: "Olha, eu me compadeço de sua dor. Não queres tu dividi-la comigo?" - Provavelmente ele diria não... e fim.

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