sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Breve história de Pishkarev

Personagem complexo e trágico. Entrega seu coração ao que imagina ser uma dama e treme quando se aproxima dela. Descobre então ser ela de fato uma prostituta, cínica e fútil. Pishkarev, um amante da beleza, carece de experiência de vida e conhecimento de mundo para compreender a beleza como máscara e mercadoria. O jovem artista se recupera de seu sentimento de repulsa, primeiro, e imagina a moça uma vítima inocente: resolve salvá-la, inspirá-la com seu amor, levá-la para seu sótão, onde viverão de amor e arte. Mais uma vez ele se enche de coragem, aproxima-se dela e se declara; e mais uma vez, ela, é claro, ri dele. Na verdade, ela não sabe de que rir mais - se da ideia de amor ou da ideia de trabalho honesto. Vemos, agora, que ele necessita de ajuda muito mais que ela. Destroçado pelo abismo entre seus sonhos e a realidade com que depara, esse sonhador perde o controle de ambos. Pára de pintar, mergulha nas visões provocadas pelo ópio, torna-se então um viciado e, finalmente, tranca-se no quarto e corta a garganta. (Gogol por Berman)

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Antes fosse...

um pedaço
trapilho
ou infarto (ao coração)
desgastado
que em curvas
deslizaaaaava e deslizaaaaava
até tombar
tombou
e fosse culpado
cuspido e
queimado

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Ei-lo


E lá que estava o velho, num corpo juvenil, perdido novamente. Fazia tempo que a memória lhe falhava e que os dias se tornavam cada vez mais curtos. Uma mão lhe comprimia a nuca, tudo doía somente por abrir os olhos para piscar. Era aquilo que chamavam de passado? – pensava por um instante – instantes que construíram moradas em sua cabeça. Estava definhando pelas memórias, quase sempre pueris e latentes como o fogo dos infernos. À sua frente o passado não era menos que um gigante. Um fantasma de feições mortais e dedos longos que lhe esmagavam. Seus pensamentos o levaram por lugares obscuros, nunca antes conhecidos por ele. Entretanto, mesmo sob a prensa violenta que tirava seu ar, o velho sentava na cadeira de balanço com seu cachimbo, aceitando sem resistir sua condição.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

A crítica feminista em Jaula das Gostosudas

Durante muito tempo em nossa história as mulheres foram vistas como inferiores. Não detinham qualquer perspectiva política e, quase como senso comum, seu lugar era na frente de um fogão ou de um tanque cheio de roupa. O pontapé inicial para a mudança desse contexto submisso tem sua explicação na História (e aqui uso História enquanto campo acadêmico). Após duas gerações de Analles, é na terceira que a valorização dos sujeitos ocultos do passado começa efetivamente a caminhar. Num pretenso descontentamento, após o fim da II Guerra Mundial, o mundo (bem como seus estudiosos) pararam para refletir como as ditas sociedades civilizadas foram capaz de emplacar duas grandes guerras num intervalo tão curto de tempo. As mulheres, como sempre perspicazes, criticaram o fato de que tais guerras foram realizadas por homens. Neste sentido, não se tinha como pensar mais no homem sendo superior, afinal nunca houvera uma Grande Guerra por conflitos culinários, ou pela manutenção do status quo como melhor lavadeira. Elas se revoltaram, e se revoltaram com força. Atualmente, no Brasil, ainda vemos resquícios desse movimento feminista há muito tempo iniciado na Europa. Vamos analisar agora um grupo de meninas contemporâneas que atacam ferozmente, com sua letra contestadora, a autoridade masculina, bem como defendem o ideal feminista de elevação da mulher independente. Apresento-vos a Jaula das Gostusudas:

Analisemos a letra:

"Vem que vem fervorosa, que a jaula te contagia. A partir de agora... a partir de agora é proibido usar calcinha"

Inicialmente, quase como Marx clamando aos trabalhadores do mundo, a vocalista do grupo incentiva o fervor do pensamento feminino, incita as ações radicais que, pela proporção das ideias mobiliza o público feminino em massa (que até então estava numa espécie de "jaula", presas pelo discurso de superioridade masculino). O versos seguintes estapam a ideologia do movimento, estapam a principal filosofia moderna, é a chave hermenêutica da música. Ela proibi usar calcinha. Essa peça tipicamente feminina agora sendo utilizada de forma figurativa e em protesto. 

É proibido usar calcinha
É proibido usar calcinha
É proibido usar calcinha

Por seguinte, os versos se repetem quase que num lupping infinito. Na estética da recepção verbal esse uso da repetição é uma estratégia para fixar os ideias, as palavras que estão sendo proferidas. 
A todos aqueles que dizem que o funk não tem qualquer conteúdo, obviamente lançam olhares inocentes a construção dessas letras brilhantemente ácidas e que, principalmente, retomam parte da história global de maneira simplificada e muito crítica. 

Por David Coutinho