terça-feira, 28 de junho de 2011

À minha suja amante

Tem-se cálido o que é meu peito
Hoje é o dia da transação.
Transa, ação. Às minhas sujas amantes.
Não me excita o zelo da dona de casa...
Sua comida até que é boa, mas o tempero da rua tem sido melhor.
E não é pelas pernas peludas nem pelo cabelo descuidado.
Também não é pela verruga ou a pele maltratada.
O motivo não sei, talvez o nojo de me sentir preso
A um monstro castigado pelo tempo.
Minhas amantes não envelhecem, elas se renovam.
Um dia loiras, noutro negras, as vezes ruivas. Todas de pele lisa como seda.
A elas dou o carinho que falta em casa.
Dou-lhes presentes deixando dívidas que sobram em casa.
Preencho fisicamente um espaço que falta no coração.
A verdadeira amante suja lava a minha roupa.
Beija minha boca e se sente culpada pela minha rejeição.
É impossível ter algum afeto por esse tipo de animal.
Dela eu só espero a casa arrumada e comida na mesa.
Escrevo hoje para as belas da rua, e se existe algo de bom mim
Com certeza ficou dentro da puta nua, num quarto barato com baratas a espiar.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Subverso

Você esconde em meias palavras
Uma verdade que não coincide com a realidade
E subverte o que não convém
Até que se transforme em cinzas
Um coração vermelho, por tanto tempo queimou.

Me limita e profana toda dor recente
Que se toca por um lado, imediato ou próximo.
Tratando o dom da melancolia
Como um sol que não ilumina o dia

Reflete sua dor em meu peito
E chorando minhas lágrimas de outrora
Culpa as estrelas que um dia foram suas
Num céu que pintei pra você

Será feliz no caminho que escolher
Como quem vende sonhos
Para se consumir depois.

Será feliz no caminho que escolher
Queimando ou limitando, seu coração.
Demasiado perto de cessar.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Mais perto do fim

Desejo forças para continuar
Ainda que minhas pernas cansem
E que o sonho não seja real
Mesmo quando minha vontade de vida se esmiuça
Estando perto do fim, meu desejo dele aguça
Ardendo-me o peito cada vez que respirar
Falhando em mim os sentidos
Com meu pensamento indo solto por lugares obscuros
Simples cansaço mental, um fato, assim fatal
Ter fé!
Não sabendo no que
Ou mesmo para que
Apenas sustentar em mim
O fio terno que me faz viver

terça-feira, 14 de junho de 2011

Soluções

Parte 1

Estava com sede...
Busquei um copo d'água
Não o bebi todo de uma vez
Enquanto lia dava umas goladas
De imediato colocava-o no chão
Tão distraído com a leitura
Esqueci do copo, da água e de beber
Deixei uma almofada cair
Numa reação em cadeia
Logo o copo ela derrubou
Ele estava meio cheio
Ou meio vazio
Mas, estava com água

Parte 2

Como nas fases da vida
Procurei um pano pra me redimir
Queria todo o chão secar
Mas tão cedo desisti
Resolvi nada fazer
Ouvi as reclamações
Me entreti em trabalhos
Dei uma volta na rua
E esqueci do chão molhado

Parte 3

Quando voltei, que surpresa
Mal me lembrava do ocorrido
Sentei-me ao mesmo sofá
E outro livro comecei folhear
Percebendo em meu inconciente
Que o chão estava seco
O tempo encarregou-se de secar
Não foi preciso pano
Somente paciência

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Distante, você...

Não soube olhar pra trás
e ver o mal que me faz
ser parte do seu adeus.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Quando a poeira baixar (Cesar Carvalho)

Nem sei o que pensei de ti
Só sei que não contei com o fim inesperado
E agora o que faço é crer
Que posso até viver sem você

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Amores certos em tempos errados

Não é difícil que se compreenda o problema exposto no meu título. Amei duas vezes em duas décadas de vida, não sei se é muito ou se é pouco, mas, posso dizer que foi amor. Duas formas bastante peculiares de desse sentimento em dois tempos que insistiram em não se encaixar com aquilo que eu era, ou, com aquilo que me tornei. Tornou-se senso comum, e é cabível que se admita: todos mudam com o tempo. Em seus níveis mais variados somos bombardeados por tais mudanças, algumas tão mínimas e rápidas, fenômenos imperceptíveis aos nossos sentidos tão limitados. Então, é certo que eu mudei com o tempo, entretanto o tempo pareceu fechar os olhos para mim. As chances, digo no campo sentimental, que eu deveria ter há, talvez, cinco anos atrás, me apareceram aos vinte. Justamente quando eu me encontro enclausurado em camadas, que alguns diriam frias, para poder aproveitar tais chances. Por outro lado, a oportunidade que eu tive aos quinze deveria ser me dada agora que não sinto em mim o fluxo nas veias ou mesmo inflamar meu peito. Não darei nomes em minha história, mas creio que boa partes dos meus amigos, que são também leitores dos meus escritos conheçam, pelo menos de “ouvir falar” os personagens.  

Existiu um David tímido, com problemas sérios de auto-estima e muito sentimental, daquele tipo que acredita na instituição casamento, dois filhos, um cãozinho, carro na garagem, emprego bacana e uma vida feliz. Esse rapaz encontrou, por sorte ou não, em sua primeira namorada o amor. Nesse tempo essa palavra tinha tanto significado, era repleta de pensamentos e medos, naquele tempo eu acreditava que poderia definir meu nível sentimental, independente das ações, com apenas quatro letrinhas. Foi meu tempo errado para a pessoa certa. Ou, meu tempo certo para a pessoa errada. Em resumo, só o que consegui foram marcas, sofrimento, e tudo isso com o agravante de eu ser um menino. Sim, inexperiente em todos os sentidos, atraído e assim traído, sustentado pelos pais e acolhido por eles, foi um golpe cruel, porém não mortal. Ouvi dela que minha vida seria melhor sem ela. Um das poucas coisas daquele tempo que hoje eu admito ser certo. Parcialmente, pelo menos, não foi mortal. Pessoas dizem que uma parte de mim morreu, entretanto, eu acredito mesmo é que uma parte de mim despertou e daí sigo para o próximo erro temporal.

Existe um David não mais tão tímido. Extremamente articulado. Aparentemente sempre disposto com aqueles que o procuram. Que “ama” seus amigos com força e que aprendeu a usar aspas quando se falar de “amor”. Aspas porque não existe amor. Não enquanto forma, enquanto algo mensurável. Quando se fala em amor ele simplesmente deixa de existir, pois não é algo discutível, não é imanente. Ele é transcendente e abstrato, assim como Deus, por exemplo. É uma questão de fé tê-lo. Uma crença não necessariamente racional, mas que nos move a continuar passivos. Parece contraditório, talvez seja isso mesmo. Amor é uma palavra que engloba uma série de ações e outros possíveis sentimentos, por excelência ele é sintético. Como podem ver, e por diferentes óticas, meu senso parece frio. O “castelo glacial”, diria um grande amigo meu. E é nesse tempo de “indisposição sentimental” que encontrei o segundo “amor” da minha vida. Em tempo achei que seria “daqui até a eternidade”. Eternidade finda, isso também aprendi. Em quantas mesas de bar e quantas vezes repeti: qualquer homem são pararia com ela. Parar no sentido de, por fim, querer algo sério, seguir a ordem comum das relações: namoro, noivado e casamento. Era de me gabar por ter encontrado alguém tão inteligente, bonita, compreensiva e principalmente amiga. Amizade essa que ruiu e do que era lindo sobraram os escombros. Culpa do tempo. Não me culpem por culpar o que não existe. Por definição nós inventamos o tempo, ainda assim lhe culpo. Poderia tomar pra mim a sentença, mas, se me tornei tão frio, então porque eu me importava tanto? O amor também é inventado, e meu segundo amor em tempo errado fui eu que construí. Quem poderia me apontar e dizer que não amei, se por vezes a outra parte da relação me dizia ser feliz comigo e que não enxergava um futuro sem mim, ao menos como amigo? Não foi a espécie de amor louco que tive primeiramente. Estava mais para uma passividade que vislumbrava a leveza entre os dois, sem chateações que pudessem desgastar uma relação que não se apoiava apenas em “amor”, mas no conjunto de coisas a qual definimos, mediocremente, com um verbo. Amor é um verbo que estraçalha o sujeito e lhe muda os predicados, talvez essa seja a melhor forma de sintetizar o que me aconteceu nos dois tempos.

Ironia do destino, ou não, no primeiro caso ser correto me rendeu tal dor e introspecção que por tempos achei que podia odiar. Mas, só me tornei indiferente. E se por muito tempo nada realmente nada significou, no segundo caso eu sentia e fazia muito, embora eu não possa dizer que foi amor, não da forma quadrada e tradicional que enxergam o amor, havia algo diferente. Eu me importava e sentia antecipadamente as dores de um futuro sem a presença daquela mulher. Próximo ao fim eu estava tão perdido, mas, ainda assim firme, afinal chegou um momento em que todo frescor agora doia como brasa em pele. Como no primeiro fui também correto e por isso, contradizendo qualquer lógica, passei de uma "vítima dos sentimentos" para ser o "carrasco" a mando deles. Meu segundo “amor” foi assim, entre aspas. Era meu cuidado em ter sempre cuidado. Aceitar o necessário e ser mais comedido. Acordar bem sentindo a suavidade em meu peito, ao contrário de batimentos atordoados e de preocupações sem sentidos. Se no segundo também chegou o fim, foi só essa falta de loucura que eu tive no primeiro, meu ímpeto antes de me anular em prol de tudo dividindo agora espaço com meu amor próprio. Foi uma falta do tempo e também minha por não ter conseguido manter o garoto de quinze anos na minha estrutura de vinte. O que começou para ser um poema termina agora parecendo um desabafo. Não sei o quanto o que contei se aproxima do clichê, mas, aconteceu. Se tiveram saco para ler até aqui, bem, obrigado.