Não é difícil que se compreenda o problema exposto no meu título. Amei duas vezes em duas décadas de vida, não sei se é muito ou se é pouco, mas, posso dizer que foi amor. Duas formas bastante peculiares de desse sentimento em dois tempos que insistiram em não se encaixar com aquilo que eu era, ou, com aquilo que me tornei. Tornou-se senso comum, e é cabível que se admita: todos mudam com o tempo. Em seus níveis mais variados somos bombardeados por tais mudanças, algumas tão mínimas e rápidas, fenômenos imperceptíveis aos nossos sentidos tão limitados. Então, é certo que eu mudei com o tempo, entretanto o tempo pareceu fechar os olhos para mim. As chances, digo no campo sentimental, que eu deveria ter há, talvez, cinco anos atrás, me apareceram aos vinte. Justamente quando eu me encontro enclausurado em camadas, que alguns diriam frias, para poder aproveitar tais chances. Por outro lado, a oportunidade que eu tive aos quinze deveria ser me dada agora que não sinto em mim o fluxo nas veias ou mesmo inflamar meu peito. Não darei nomes em minha história, mas creio que boa partes dos meus amigos, que são também leitores dos meus escritos conheçam, pelo menos de “ouvir falar” os personagens.
Existiu um David tímido, com problemas sérios de auto-estima e muito sentimental, daquele tipo que acredita na instituição casamento, dois filhos, um cãozinho, carro na garagem, emprego bacana e uma vida feliz. Esse rapaz encontrou, por sorte ou não, em sua primeira namorada o amor. Nesse tempo essa palavra tinha tanto significado, era repleta de pensamentos e medos, naquele tempo eu acreditava que poderia definir meu nível sentimental, independente das ações, com apenas quatro letrinhas. Foi meu tempo errado para a pessoa certa. Ou, meu tempo certo para a pessoa errada. Em resumo, só o que consegui foram marcas, sofrimento, e tudo isso com o agravante de eu ser um menino. Sim, inexperiente em todos os sentidos, atraído e assim traído, sustentado pelos pais e acolhido por eles, foi um golpe cruel, porém não mortal. Ouvi dela que minha vida seria melhor sem ela. Um das poucas coisas daquele tempo que hoje eu admito ser certo. Parcialmente, pelo menos, não foi mortal. Pessoas dizem que uma parte de mim morreu, entretanto, eu acredito mesmo é que uma parte de mim despertou e daí sigo para o próximo erro temporal.
Existe um David não mais tão tímido. Extremamente articulado. Aparentemente sempre disposto com aqueles que o procuram. Que “ama” seus amigos com força e que aprendeu a usar aspas quando se falar de “amor”. Aspas porque não existe amor. Não enquanto forma, enquanto algo mensurável. Quando se fala em amor ele simplesmente deixa de existir, pois não é algo discutível, não é imanente. Ele é transcendente e abstrato, assim como Deus, por exemplo. É uma questão de fé tê-lo. Uma crença não necessariamente racional, mas que nos move a continuar passivos. Parece contraditório, talvez seja isso mesmo. Amor é uma palavra que engloba uma série de ações e outros possíveis sentimentos, por excelência ele é sintético. Como podem ver, e por diferentes óticas, meu senso parece frio. O “castelo glacial”, diria um grande amigo meu. E é nesse tempo de “indisposição sentimental” que encontrei o segundo “amor” da minha vida. Em tempo achei que seria “daqui até a eternidade”. Eternidade finda, isso também aprendi. Em quantas mesas de bar e quantas vezes repeti: qualquer homem são pararia com ela. Parar no sentido de, por fim, querer algo sério, seguir a ordem comum das relações: namoro, noivado e casamento. Era de me gabar por ter encontrado alguém tão inteligente, bonita, compreensiva e principalmente amiga. Amizade essa que ruiu e do que era lindo sobraram os escombros. Culpa do tempo. Não me culpem por culpar o que não existe. Por definição nós inventamos o tempo, ainda assim lhe culpo. Poderia tomar pra mim a sentença, mas, se me tornei tão frio, então porque eu me importava tanto? O amor também é inventado, e meu segundo amor em tempo errado fui eu que construí. Quem poderia me apontar e dizer que não amei, se por vezes a outra parte da relação me dizia ser feliz comigo e que não enxergava um futuro sem mim, ao menos como amigo? Não foi a espécie de amor louco que tive primeiramente. Estava mais para uma passividade que vislumbrava a leveza entre os dois, sem chateações que pudessem desgastar uma relação que não se apoiava apenas em “amor”, mas no conjunto de coisas a qual definimos, mediocremente, com um verbo. Amor é um verbo que estraçalha o sujeito e lhe muda os predicados, talvez essa seja a melhor forma de sintetizar o que me aconteceu nos dois tempos.
Ironia do destino, ou não, no primeiro caso ser correto me rendeu tal dor e introspecção que por tempos achei que podia odiar. Mas, só me tornei indiferente. E se por muito tempo nada realmente nada significou, no segundo caso eu sentia e fazia muito, embora eu não possa dizer que foi amor, não da forma quadrada e tradicional que enxergam o amor, havia algo diferente. Eu me importava e sentia antecipadamente as dores de um futuro sem a presença daquela mulher. Próximo ao fim eu estava tão perdido, mas, ainda assim firme, afinal chegou um momento em que todo frescor agora doia como brasa em pele. Como no primeiro fui também correto e por isso, contradizendo qualquer lógica, passei de uma "vítima dos sentimentos" para ser o "carrasco" a mando deles. Meu segundo “amor” foi assim, entre aspas. Era meu cuidado em ter sempre cuidado. Aceitar o necessário e ser mais comedido. Acordar bem sentindo a suavidade em meu peito, ao contrário de batimentos atordoados e de preocupações sem sentidos. Se no segundo também chegou o fim, foi só essa falta de loucura que eu tive no primeiro, meu ímpeto antes de me anular em prol de tudo dividindo agora espaço com meu amor próprio. Foi uma falta do tempo e também minha por não ter conseguido manter o garoto de quinze anos na minha estrutura de vinte. O que começou para ser um poema termina agora parecendo um desabafo. Não sei o quanto o que contei se aproxima do clichê, mas, aconteceu. Se tiveram saco para ler até aqui, bem, obrigado.
Suas ultimas palavras me fizeram lembrar de algo que também senti, escrevi e que talvez poste no meu blog.
ResponderExcluirAcho que todos passamos por isso, poucos percebem essa mudança.