O texto a seguir é uma homenagem ao meu amigo Cesar Carvalho e a sua descrença sobre os poetas também serem ótimos roteiristas de Hollywood.
Aconteceu comigo, no trem, e foi mais ou menos assim:
Almocei naquele dia mais cedo, precisava cumprir minha obrigação de ir ao centro do rio pesquisar, a boa função de qualquer historiador (ou pelo menos um que se julga assim). Como precisava estar no arquivo por volta de uma da tarde saí de casa no horário habitual em que saía todas as vezes em que ia trabalhar. Houve no meio do caminho um pequeno contratempo, encontrei uma velha conhecida e esta me tomou dois ou três minutos de atenção. Quando ela me liberou segui normalmente meu trajeto até a estação. Eis que quando estou subindo o trem já está parando. Ainda me esforcei numa pequeda corrida escada acima e depois escada abaixo, mas, perdi o trem. Obviamente, maquinado como sempre, eu calculava minha saída de casa contando com eventuais atrasos, logo, me antecipava para que nesses casos eu não me atrasasse (não muito que fosse). Sentei-me em um banco e liguei meu mp4 para ouvir Gogol Bordello. Em exatos 7 minutos outro tem despontou vindo de Japeri em direção a Central do Brasil. Fui nele. Estava vazio, exceto pelos acentos todos ocupados. Sem querer me direcionei para a frente de um homem do qual analisei não demorar para desocupar o lugar. Por uns instantes não notei a graciosidade que estava do seu lado direito. Quando o fiz, dei por sortudo de observar tão bem que o coroa já ia saindo do trem. Soltou não mais que duas estações depois que eu entrei. De um lado eu estava embasbacado com a beleza da garota que quase a minha frente estava sentada. Ela tinha cabelo liso e cumprido. Era escuros, mas não pretos. Depois, quando sentei ao seu lado, pude reparar que à luz do sol refletia uma espécie de castanho, quase averlhado. Usava óculos com um detalhe em violeta. Aquela desconhecida era tão branca que me dava angústia saber que existia sol. Suas bochechas estavam levemente rosadas, não sei se pela maquiagem ou se natural. Estava entretida ouvindo música diretamente do seu celular. Balançava as pernas suspensas no ar. Não fazia o tipo alta, prova é que seus pés não tocavam o chão do trem enquanto estava sentada. As vezes ela soltava um leve risinho e me pareceu muito aliviada quando o senhorzinho levantou-se saindo do seu lado. Como um rato louco que vai direto no queijo sem se importar com a ratoeira eu me sentei ao seu lado. Ávido! Por um lado eu queria ter continuado a sua frente, só para lhe admirar o rosto, face a face. Tentar pescar nos seus olhos qualquer interesse em mim. Mas que bobeira, era só uma desconhecida. Ao mesmo tempo, me policiava para não olhar tanto para ela, estava com um medo incrível de que meus olhos traíssem meus pensamentos. Estava eu sentado ao seu lado. Nós dois ouvindo música. Sentia que assim tínhamoos alguma coisa em comum. Talvez eu até perguntasse a ela o que estava ouvindo. Tão logo ajustei o volume dos fones ela tirou os dela. Se inclinou para frente se apoiando nas mãos, que por sua vez tinha os cotovelos apoiados na bolsa que estava em suas pernas. Fechou os olhos. Eu não podia acreditar que ela ia dormir e não olharia para mim. Pois é, se não falei, falo agora. Até aquela hora ela não tinha olhado para mim. Parecia que o sono dela tinha passado pra mim, mas não fechei os olhos, me negava a perder qualquer momento de vista aquela figura. Levantei os braços tentando me espreguiçar e não incomodar nem a bela adormecida, nem a minha vizinha da esquerda. Apoiei meu braço direito então no espaço entre as costas da desconhecida e a janela. Chegamos em cascadura. Ela se mexeu um pouco, achei que ia levantar. Eu estava torcendo para que as estações não passassem mais, podia ficar ali daquele jeito o resto do dia. Melhor ainda foi quando ela caiu no meu ombro. Se recostou no ombro pegando também parte do meu peito. Um frio me correu na espinha. O coração acelerou. Eu não acreditava que aquilo estava acontecendo. Ela não podia ter pegado no sono tão rápido. Milhares de pensamentos passaram na minha cabeça. Achei que era um sono fingido só para se aproximar. Depois concluí que só estava mesmo cansada. Cheguei a pensar que tinha morrido e caído de lado. Entretanto, recostada em mim ela ficou até a Central. Quando lá chegamos ela despertou num susto. Olhou pra mim com uma cara de interrogação. Provavelmente eu lhe devolvi a interrogação. Ela sorriu e descupou-se. Botou a bolsa nos ombros e seguiu seu rumo quando as portas se abriram. Eu fiquei ali sentado imaginando que deveria tê-la pegado na mão e agradecido por aquela prazeirosa viagem. Foi uma paixão entre estações. Uma paixonite de trem, que tão logo veio logo passou. Foi rápido e não me feriu. Jamais ei de esquecer.
Foi uma paixão entre estações. Uma paixonite de trem, que tão logo veio logo passou. Foi rápido e não me feriu. Jamais ei de esquecer.
ResponderExcluircopiar ta?
abraços
Fica a vontade, cara! Abraços.
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