terça-feira, 29 de novembro de 2011

Entre sonho e pesadelo

Por favor, me chamem de Gale.

E ao dormir, eis que tive o que poderia ser sonho ou pesadelo - definições a parte, e que a parte fiquem, a verdade é que eu ainda não tinha pegado no sono - talvez eu estivesse numa fase entre o fervilhar de passagens que o cérebro faz e o desligamento parcial do meu corpo. As imagens que correram minha cabeça estalaram fagulhas por todos meus músculos, tencionando cada um deles. O coração acelerava e era como se eu pudesse odiar o mundo, ou ao menos algumas figuras específicas dele, bem ali, da minha cama e imóvel. Chega de firulas e vamos a primeira e mais Leviatã das minhas armadilhas cerebrais:

Plano mental 1 - Eu morri. E todo resto da história se desenrola a partir disso. Eu morri e estava no céu com Deus e com Lúcifer. Fiquei no meio dos dois que, por suas vezes, não falavam nada. De lá eu podia assistir a tudo que acontecia com os que ficaram. Aí que começou minha tortura. As imagens passaram loucamente e acelaradas, simplesmente pulando todo meu funeral e umas poucas pessoas que lá choravam, diretamente para um fulano que em vida eu detestei com a força de minh'alma. Como se não bastasse estar bem sucedido - o que aliás era o que menos me importava - lá estava ele com a fulana que outrora tinha sido minha companheira. E os dois riam, apontavam para o céu como se pudessem tirar um sarro da minha cara. Estava felizes, andavam abraçados, quase que grudados pelas ruas, becos e vielas. Depois imagens de frutas surgiram - sim, estavam numa mesa - tinham vários pratos e um chester ao centro. Se abre minha visão e lá estão os dois, numa seia de natal oferecida pela famíla dela. Enquanto isso os anfitriões do paraíso me assistem, e eu explodo internamente como toda a minha ira, sem ousar externar, sem ousar me trair os sentimentos que me cortam feroz como um tornado. Mas, embora saiba que tudo foi irreal agora, naquele momento não era bem assim e, talvez se eu tivesse força divina, não sobraria fios de imagens que eu pudesse ver. Por seu turno, as imagens ainda passavam como passadas num álbum de fotografias. Os dois envelheceram e tiveram uma filha - estranhamente ela se parecia comigo e mais estranho ainda foi que, ao vê-la crescer, sua personalidade também tendenciava-se a mim - tal evento não passou despercebido pelos dois, porém quem mais se incomodou foi o fulano. A fulana, bem, essa parecia aturdida. Se pegava muitas vezes encarando a própria filha como se encarasse um fantasma. Já o fulano implicava com tudo o que a garota fazia e viviam em constante pé de briga. Não sei em que ponto aconteceu, mas aconteceu, e a fulana conhecia quase todos que eram meus amigos. Se bem que depois de morto eu pude contar apenas uns três que realmente pudesse ser chamados assim, de qualquer forma, ela foi até eles para entender como lidar com a suposta forma feminina da minha pessoa. As imagens simplesmente pararam aí... eu mexi um dos braços e sem querer acabei retornando a atual realidade. Mas, algo me ficou, concluí que não deve existir um julgamento pós morte pelos pecados cometidos. Talvez a gente só precise enfrentar aquilo que mais nos move pelo ódio e, quase como uma ironia, não poder fazer qualquer coisa para evitar, não poder escandalizar, ofender ou mesmo se resguardar. É como um soco em seu peito e que gradativamente lhe tira o ar, mas lentamente, para que você possa perceber o quanto tempo perdeu sem prestar atenção em vida que sequer respirava.

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