segunda-feira, 18 de junho de 2012
A literatura brasileira resumida
De poeta, de literário, eu só tenho meu coração. Por ofício sou historiador. Muitos dos meus textos cumprem com os rigores científicos previstos pelas normas técnicas. Previstos pela academia de história. A literatura, por sua vez, liberta minha alma. Não faço letras, nem estudei didaticamente sobre literatura. Tudo que sei - e sei que é pouco - provém da minha curiosidade e ânimo para ler. Antes mesmo de saber que meu trabalho seria ler e escrever eu já amava fazes as duas coisas. Se literatura me dá asas, a história me fez crítico. Se na literatura disperso, na história concateno. Mas, este texto trata-se não sobre mim, mas sobre a literatura brasileira. Que meu título não cause estranheza, contudo o que seria falar dos escritos nacionais e não falar de Clarice Lispector, Machado de Assis, Jorge Amado ou Nelson Rodrigues? Não se espante se nenhum outro nome lhe surgir a mente. Acaso lhe falasse de supetão: "diga aí um poeta nacional...", não se espante se um dos nomes acima surge na sua cabeça sem esforço. Sem querer desmerecer o trabalho de cada um, mas isso é o que eu chamo de literatura brasileira resumida. Primeiro, ninguém se lembra mais das escolas literárias. O que, aliás, é o que menos importa. Ninguém precisa saber o que é realismo para gostar de Machado de Assis. Esqueceram do parnasianismo. Talvez pelo fato de dar muito trabalho contar as sílabas pela sonoridade. Dificuldade de fazer rima rica. Esqueceram o parnasiano. Esqueceram que Machado não foi parnasiano, foi romântico. Romântico e realista, sua obra vacila entre as duas linhas. Clarice, coitada, devia saber menos de literatura do que eu. Prezava pela indefinição. Escritos verdadeiramente água com açúcar, um bom estilo pra ela. Por falar em água, lembro de vinho. Por falar em vinho, lembro de Álvares de Azevedo em suas Noites na Taverna. Ou das longas conversas de Macário com Satã. Lembro das suas Liras de Vinte Anos. Lembro que nunca ouvi falar dele na televisão. Ultraromantismo ficou fora de moda, deve ter sido esse o problema. Resumiram o Brasil em certas tradições. Jorge, Amado por todos, Bahia! Nelson Rodrigues, por sua vez, via a vida como ela é, e estranhamente isso fez sucesso. Ninguém precisaria mais do Simbolismo de Cruz e Souza. Ninguém precisaria mais sofrer para escolher entre a morena e a branca. Pela ótica de Nelsinho, homem que é homem ficaria com as duas. Platonismo foi pra escanteio. Grandes amores que não davam certo foram substituidos por Helenas e Gabrielas. Perderam os cuspes de quem escreveu "Boca do inferno". Perderam a curiosidade de olhar no dicionário o que era "quimera" e esqueceram de que seu autor levava Anjos no nome. Barroco ficou aleijadinho. E ninguém sabe o que é literatura senão pela televisão. Os livros, ninguém os tem. Aprendemos hoje pelas miniséries. O furor de passar página por página deu lugar ao controle remoto. Temos um quadro literário resumido. Que pouco se amplia com este texto, entretanto, talvez, desperte a curiosidade. Leminski, Quintana, Barreto, entre outros, são também poetas. São riquezas nacionais. De literários têm seus corações.
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