Saibam, de antemão, que odiei a todos. Odiei todos aqueles que não eram como eu. Aos que eram, esses, não odiei tanto. Era capaz inclusive de tolerar. Tolerância, que engraçada, minha vida passou numa síntese mesquinha de ser tolerante. Eu destetava suas educações. Suas músicas e principalmente a incapacidade de organizar os pensamentos, tais como dito, na prática. Ah, eu odiava...
Fui hipócrita, cinico, mentiroso e, algumas vezes, sincero. Sempre que agia por impulso, aí era sincero. No mais, eu só omiti, camuflei, disfarcei. Talvez eu odiasse o que via simplesmente porque o que eu via parecia tão sincero em si mesmo. Enquanto isso, eu só queria parecer sincero. O que mais odiava nessa encenação era as pessoas acreditarem em mim. Toda vez que refletia, eu pensava o quanto perdia tempo em atuar para pessoas tão ignorantes. Pessoas que julgavam me conhecer de cor, mas que na realidade nada sabiam de mim. Enganei muita gente dizendo verdades. Sustentei essas verdades até o final da minha vida. Em todo tempo eu também me odiava por não poder ser eu mesmo. Todas as vezes que me controlei, que não falei, que não feri, foram cortes profundos em mim. Enquanto viam um exterior austero, por dentro eu era só confusão e caos. Minha mente maquinava coisas que eu não podia mostrar. Então, eu me reprimia. Acostumava. Me tornava cúmplice daquilo que eu mais odiava. Odiei fazer e não ser retribuido, mesmo sabendo que o fazer se tratava apenas de uma trato meu com minha própria consciência. Criei limites, espaços, barreiras. Procurei me inserir somente o necessário em algumas vidas. Não queria lidar com amigos que não eram meus, assim como não quis integrar o próximo aos meus. Na minha vida não existiu 'nós'. Seria até mesmo engano dizer que fui um homem duplo. Era múltiplo. Era forjado e sincero. Natural e mentiroso. A única coisa certa é que eu tinha uma raiva incontida dentro de mim. Vivi sempre sobre este barco. Inventei princípios para parecer melhor, pura hipocrisia. Eu não era nada e, mesmo assim, desprezava todos os outros, tão nada quanto eu. Muitos ousaram dizer que sabiam o que era melhor pra mim. Mas eu era um plano de fundo em mim mesmo. Eu era o ponto de fuga da minha tela. Algo que existe e ninguém enxerga. As pessoas só interpretam, e a maioria gosta de acreditar que faz algum tipo de diferença para alguém. Pura vaidade infantil. Queremos a verdade, entretanto nos enganamos o tempo todo. A verdade é que não estamos preparados para verdades. É imprescindível a vida sob ilusões, projeções. Por isso também me odiei quando menti e acreditaram. Todos pareciam sentir um prazer imensurável em ouvir qualquer palavra doce. Qualquer palavra branda. Qualquer coisa que já esperassem ouvir. Uma espécie de ratificação daquilo que outrora sonharam. Como odiei as pessoas... odiei suas frivolidades. Seus programas de tv. Suas tolas preocupações de um futuro melhor. Odiei por que se encantavam e se distraiam com coisas tão inúteis quanto elas mesmas. Me odeio agora por fazer a mesma coisa, escrevendo estas linhas. Quis me isolar, mas não consegui. Tentei ver o lado bom de tudo, também falhei. O espaço, o tempo, o que ia e vinha, pareciam só uma grande piada que ninguém ria no final. Eu odiei as ambições erradas, aqueles conquistaram tudo o que queriam e para que? Ficar para a posteridade. Para que os filhos, dos filhos de seus filhos aproveitem. E depois os filhos dos filhos deles. Até que se perca no tempo e que você não seja mais do que vestígio ínfimo de um passado muito, muito distante. Odeio que o material seja sobreposto ao humano, não por eu ser complacente a minha raça, mas porque os motivos pelos quais isso é feito são equívocos. Posso falar em humanidade, como posso me referi a uma só pessoa, dá no mesmo. Minha mensagem é clara. Algumas coisas eu odiei só numa pessoa. Algumas numa e noutra. Algumas odiei em todos e até em mim. Mas sempre foi mais fácil odiar o outro. Pois o outro não sabia que estava errado. Ele era otimista, alegre e dançante. Era tosco, tacanho e obtuso. E eu odiava fingir que compreendia. O outro pouco me oferecia. Sei que o "eu" nada mais é do que reflexo do "outro", e só por isso eu também me odiava. Mesmo que de forma inconciente eu fosse um reflexo tão ruim de alguém quanto todos eram também de mim. A diferença é que eu entendia isso... e só neste ponto é que eu poderia distinguir o 'outro' de 'mim'. Odiei morrer calado e, só então, escrever tudo isto, que não chega nem a metade do que eu poderia dizer...
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