sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Breve história de Pishkarev

Personagem complexo e trágico. Entrega seu coração ao que imagina ser uma dama e treme quando se aproxima dela. Descobre então ser ela de fato uma prostituta, cínica e fútil. Pishkarev, um amante da beleza, carece de experiência de vida e conhecimento de mundo para compreender a beleza como máscara e mercadoria. O jovem artista se recupera de seu sentimento de repulsa, primeiro, e imagina a moça uma vítima inocente: resolve salvá-la, inspirá-la com seu amor, levá-la para seu sótão, onde viverão de amor e arte. Mais uma vez ele se enche de coragem, aproxima-se dela e se declara; e mais uma vez, ela, é claro, ri dele. Na verdade, ela não sabe de que rir mais - se da ideia de amor ou da ideia de trabalho honesto. Vemos, agora, que ele necessita de ajuda muito mais que ela. Destroçado pelo abismo entre seus sonhos e a realidade com que depara, esse sonhador perde o controle de ambos. Pára de pintar, mergulha nas visões provocadas pelo ópio, torna-se então um viciado e, finalmente, tranca-se no quarto e corta a garganta. (Gogol por Berman)

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Antes fosse...

um pedaço
trapilho
ou infarto (ao coração)
desgastado
que em curvas
deslizaaaaava e deslizaaaaava
até tombar
tombou
e fosse culpado
cuspido e
queimado

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Ei-lo


E lá que estava o velho, num corpo juvenil, perdido novamente. Fazia tempo que a memória lhe falhava e que os dias se tornavam cada vez mais curtos. Uma mão lhe comprimia a nuca, tudo doía somente por abrir os olhos para piscar. Era aquilo que chamavam de passado? – pensava por um instante – instantes que construíram moradas em sua cabeça. Estava definhando pelas memórias, quase sempre pueris e latentes como o fogo dos infernos. À sua frente o passado não era menos que um gigante. Um fantasma de feições mortais e dedos longos que lhe esmagavam. Seus pensamentos o levaram por lugares obscuros, nunca antes conhecidos por ele. Entretanto, mesmo sob a prensa violenta que tirava seu ar, o velho sentava na cadeira de balanço com seu cachimbo, aceitando sem resistir sua condição.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

A crítica feminista em Jaula das Gostosudas

Durante muito tempo em nossa história as mulheres foram vistas como inferiores. Não detinham qualquer perspectiva política e, quase como senso comum, seu lugar era na frente de um fogão ou de um tanque cheio de roupa. O pontapé inicial para a mudança desse contexto submisso tem sua explicação na História (e aqui uso História enquanto campo acadêmico). Após duas gerações de Analles, é na terceira que a valorização dos sujeitos ocultos do passado começa efetivamente a caminhar. Num pretenso descontentamento, após o fim da II Guerra Mundial, o mundo (bem como seus estudiosos) pararam para refletir como as ditas sociedades civilizadas foram capaz de emplacar duas grandes guerras num intervalo tão curto de tempo. As mulheres, como sempre perspicazes, criticaram o fato de que tais guerras foram realizadas por homens. Neste sentido, não se tinha como pensar mais no homem sendo superior, afinal nunca houvera uma Grande Guerra por conflitos culinários, ou pela manutenção do status quo como melhor lavadeira. Elas se revoltaram, e se revoltaram com força. Atualmente, no Brasil, ainda vemos resquícios desse movimento feminista há muito tempo iniciado na Europa. Vamos analisar agora um grupo de meninas contemporâneas que atacam ferozmente, com sua letra contestadora, a autoridade masculina, bem como defendem o ideal feminista de elevação da mulher independente. Apresento-vos a Jaula das Gostusudas:

Analisemos a letra:

"Vem que vem fervorosa, que a jaula te contagia. A partir de agora... a partir de agora é proibido usar calcinha"

Inicialmente, quase como Marx clamando aos trabalhadores do mundo, a vocalista do grupo incentiva o fervor do pensamento feminino, incita as ações radicais que, pela proporção das ideias mobiliza o público feminino em massa (que até então estava numa espécie de "jaula", presas pelo discurso de superioridade masculino). O versos seguintes estapam a ideologia do movimento, estapam a principal filosofia moderna, é a chave hermenêutica da música. Ela proibi usar calcinha. Essa peça tipicamente feminina agora sendo utilizada de forma figurativa e em protesto. 

É proibido usar calcinha
É proibido usar calcinha
É proibido usar calcinha

Por seguinte, os versos se repetem quase que num lupping infinito. Na estética da recepção verbal esse uso da repetição é uma estratégia para fixar os ideias, as palavras que estão sendo proferidas. 
A todos aqueles que dizem que o funk não tem qualquer conteúdo, obviamente lançam olhares inocentes a construção dessas letras brilhantemente ácidas e que, principalmente, retomam parte da história global de maneira simplificada e muito crítica. 

Por David Coutinho

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Place turn

When sky don't had colors
He was dipped in blue
While in my chest of empty space
A heart hurt she maked in their place

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Entre sonho e pesadelo

Por favor, me chamem de Gale.

E ao dormir, eis que tive o que poderia ser sonho ou pesadelo - definições a parte, e que a parte fiquem, a verdade é que eu ainda não tinha pegado no sono - talvez eu estivesse numa fase entre o fervilhar de passagens que o cérebro faz e o desligamento parcial do meu corpo. As imagens que correram minha cabeça estalaram fagulhas por todos meus músculos, tencionando cada um deles. O coração acelerava e era como se eu pudesse odiar o mundo, ou ao menos algumas figuras específicas dele, bem ali, da minha cama e imóvel. Chega de firulas e vamos a primeira e mais Leviatã das minhas armadilhas cerebrais:

Plano mental 1 - Eu morri. E todo resto da história se desenrola a partir disso. Eu morri e estava no céu com Deus e com Lúcifer. Fiquei no meio dos dois que, por suas vezes, não falavam nada. De lá eu podia assistir a tudo que acontecia com os que ficaram. Aí que começou minha tortura. As imagens passaram loucamente e acelaradas, simplesmente pulando todo meu funeral e umas poucas pessoas que lá choravam, diretamente para um fulano que em vida eu detestei com a força de minh'alma. Como se não bastasse estar bem sucedido - o que aliás era o que menos me importava - lá estava ele com a fulana que outrora tinha sido minha companheira. E os dois riam, apontavam para o céu como se pudessem tirar um sarro da minha cara. Estava felizes, andavam abraçados, quase que grudados pelas ruas, becos e vielas. Depois imagens de frutas surgiram - sim, estavam numa mesa - tinham vários pratos e um chester ao centro. Se abre minha visão e lá estão os dois, numa seia de natal oferecida pela famíla dela. Enquanto isso os anfitriões do paraíso me assistem, e eu explodo internamente como toda a minha ira, sem ousar externar, sem ousar me trair os sentimentos que me cortam feroz como um tornado. Mas, embora saiba que tudo foi irreal agora, naquele momento não era bem assim e, talvez se eu tivesse força divina, não sobraria fios de imagens que eu pudesse ver. Por seu turno, as imagens ainda passavam como passadas num álbum de fotografias. Os dois envelheceram e tiveram uma filha - estranhamente ela se parecia comigo e mais estranho ainda foi que, ao vê-la crescer, sua personalidade também tendenciava-se a mim - tal evento não passou despercebido pelos dois, porém quem mais se incomodou foi o fulano. A fulana, bem, essa parecia aturdida. Se pegava muitas vezes encarando a própria filha como se encarasse um fantasma. Já o fulano implicava com tudo o que a garota fazia e viviam em constante pé de briga. Não sei em que ponto aconteceu, mas aconteceu, e a fulana conhecia quase todos que eram meus amigos. Se bem que depois de morto eu pude contar apenas uns três que realmente pudesse ser chamados assim, de qualquer forma, ela foi até eles para entender como lidar com a suposta forma feminina da minha pessoa. As imagens simplesmente pararam aí... eu mexi um dos braços e sem querer acabei retornando a atual realidade. Mas, algo me ficou, concluí que não deve existir um julgamento pós morte pelos pecados cometidos. Talvez a gente só precise enfrentar aquilo que mais nos move pelo ódio e, quase como uma ironia, não poder fazer qualquer coisa para evitar, não poder escandalizar, ofender ou mesmo se resguardar. É como um soco em seu peito e que gradativamente lhe tira o ar, mas lentamente, para que você possa perceber o quanto tempo perdeu sem prestar atenção em vida que sequer respirava.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Seu sete ( de Fábio Leoni para David Coutinho)


Sete, são seus caminhos, para o seu jogo.
Sete são os segundos que ele te pega.
Sete são os desejos que ele impõe.
Sete são os pecados que você comete.
Você não entende de numerologia, muito menos ele.
Mas o sete, se trata do seu sete.
Remete uma entidade.
Ela perde a castidade.
Um vício sem maldade.
Astuto como lobo.
Presa fácil.
Não redide incômodo.
Joga sujo.
Trânsita como um gato.
Subindo no telhado.
Quebrando as regras.
Desregrado como um fluxo.
Amado e odiado.
Ódio é um detalhe.
O amor é estranho.
Da parte delas.
Confuso e confunde.
Corrompe os santos.
As santas e seus orgasmos.
Barba de um velho.
Gasto no tempo.
Do intelecto.
Anjo maldito
Humor destrutivo.
Sete, são seus caminhos, para o seu jogo.
Sete são os segundos que ele te pega.
Sete são os desejos que ele impõe.
Sete são os pecados que você comete.
Você não entende de numerologia, muito menos ele.
Mas o sete, se trata do seu sete.

sábado, 19 de novembro de 2011

Amanhã

Estar mais um ano vivo e comemorar o início de um novo ciclo, são ideias básicas do que se é um aniversário. Ao refletir sobre isso notei que um novo ciclo não se inicia. Os problemas do dia 20 atravessarão o dia 21 e lá estarão no dia 22 (e assim será até a morte). Chego a pensar que festejar aniversários nada mais seja do que uma maneira de se auto-convencer que, assim como na virada do ano, dali pra frente tudo será melhor. Velhas pendências esquecidas. Erros apagados. Uma folha em branco novinha para sujarmos. Percebi o que me incomoda em aniversários, especialmente no meu. Acho que é o fato dele não significar absolutamente nada. O que mais poderia ser do que meia dúzia de gente te desejando tudo de melhor? Pessoas que não te conhecem, não sabem metade de você. Ou as que conhecem e também só poderão te ligar, afinal que culpa há se na segunda todos precisam trabalhar? Não, não, por mais que digam o dia do meu nascimento não é um dia especial pra ninguém.  Melhor dizendo, ninguém nunca disse que era um dia especial, quem eu queria enganar? Um dia estarei velho e fraco comemorando com as paredes outro ano de vida, lembrando de que o dia do nascimento é só uma data pra lembrar de que o tempo passa e te destrói aos poucos. Estarei perto do fim e sozinho, não muito diferente de agora.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

21 de Novembro

Talvez Raskólnikov tenha nascido também nesse dia. Não que ele se pareça comigo em qualquer sentido, afinal Rodka se considera um gênio, indiscriminado e de certa forma escravo, pagando pena num mundo tão pueril e de pessoas tão sem graça. Nem mesmo a data tem qualquer influência sobre a personalidade, então podem se perguntar, que raios Raskólnikov e eu temos em comum? Respondo: temos em comum a minha associação de Novembro com morte. Especialmente o dia em que eu deveria comemorar estar vivo. Predicados a parte, Rodka um personagem gênio fictício Dostoievskano e eu, bem, retire tudo depois de personagem, compartilhamos do mesmo enfado. Vislumbramos que a vida é apenas um fio e por isso mesmo odiamos "parar na escada, escutar todas as tolices [...] estúpida até o absurdo, e que não lhe interessavam absolutamente nada; todos aqueles disparates [...], aquelas ameaças e lamentações, e, ademais, ter de falar, desculpar-se, mentir, não, preferia atirar-se como um gato pelas escadas abaixo e deixar-se cair ao abandono, contanto que não visse ninguém." - Rodka é isso em sua totalidade, já eu o sou parcialmente. O primeiro não tem qualquer vínculo, o segundo sim. Mas a essência é a mesma. Antes que se conheça, para nós, todos são indiferentes. De alguma forma, os dois personagens não passam despercebidos, nas histórias há quem lhes chamem pelo nome e eles, sorrindo retribuem com um "opa, camarada!". Sem ao menos saber seus nomes. Mas o texto não se trata de nós, se trata de um data. Do aniversário. Uma ocasião de festa, normalmente. Entretanto o 21 de Novembro não permite e não tolera alegria. É um dia nublado, frio, que me lembra "fim". Se o mundo um dia acabar tenho certeza de que o golpe fatal será dado em 21/11. Nada apocalíptico ou astrológico, apenas uma sensação. Passarei o dia contando os minutos para que ele acabe e talvez me atire como um gato pelas escadas abaixo.

sábado, 12 de novembro de 2011

De olhos bem fechados

Quando eu fechar os olhos
Por favor, me entenda
Quis apenas bulir-me das angústias
Ora tão incisivas e consoantes
Daí vacilo:
Trêmulo, minguante
Repouso esperando não acordar
Fito as paredes
Então aperto os olhos
Dilacero por dentro
Consumo -
E me mato mil vezes dormindo
Se eu não abrir os olhos
Por favor, me entenda

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Rio gratuito

Exibição de frases pré-moldadas
Acentuação de pontos ainda não requisitados
É tudo muito difícil de se entender

Estampas da cortina
Remendos impróprios certificando seus honorários
Hora passa, passa hora?
Vemos e pedimos isso toda hora

Instituição de unificação
Caçando sua comida
Roubando da nossa plantação

Temos um belo cristo
Que nos abraça todos os dias
Mas que parece ter se esquecido de nós

Temos o pão-de-açucar
Pena que não se pode comer

Durante o ano o que importa
Se mais uma vez
O Brasil perdeu a copa

Mas vamos levando
De estados a vendavais
De benefícios a capitais

É tudo muito difícil de se entender
As vezes nem eu sei
O que devo dizer

Aumentando o volume do som
Na noite se viu um clarão

Meu bloco de notas para nada mais serve
Está totalmente rabiscado
Mas eu ainda tenho um caderno:
Ele é verde com bolinhas brancas

Por enquanto vamos a ritmo de eleição
Não mais pela seleção!

Rapidamente chegamos a festa anuaL
Devemos nos importar agora
Com quem vencerá o carnaval

Mesmo com toda importância
E excessiva tolerância
Rio com certeza é o melhor lugar
De janeiro a Janeiro, pensando sempre no que virá

Aqui todos são carismáticos
Não há um que seja vulgar
Somos brincalhões
E as vezes rimos pra não chorar

Nossas praias protegidas por santos
Ao menos se podem consumar
Santos que não falam
Mas todos acreditam que estão lá
(O redentor pelo menos está)

E com todas essas qualidades
Quase me esqueço de mencionar
A ironia que aqui está
Não no rio, ela não ronda por lá
Mas aqui, bem à frente
Ela resolveu se prostar.

Achar graça de graça não custa nada
É apenas mais uma exibição
De frases pré-moldadas

É realmnete algo muito difícil de se entender
Imaginar pra quem não sabe ler.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Nani, mas bem que poderia ser Tatá.



Nada é melhor
que ser o centro da sua atenção
vicia o talento inato
que você tem pra me fazer rir
jogue em mim teu afeto
sempre mais
pra quem sempre quis alegria
você perto satisfaz
como o vento traz vida ao ar
como o tempo passa e nos traz
o entendimento pra nos ajudar


o que eu peço é só
que esse jeito de ver o amanhã
sem ter um peso me prensando os ombros
daqui para o fim seja incerto caminhar
pra forçar em mim o desafio perpétuo
de te amar
como o vento traz vida ao ar
como o tempo passa e nos traz
o entendimento pra nos ajudar

não sentir medo de encarar
a pressão do sol
me acalma os passos
e o coração
a voz da alma
não tem mais som

no calor do sol
me acalma os passos
e o coração
a voz da alma
não tem mais som

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

O Destruição, por Neil Gaiman.

Eu gosto das estrelas
Acho que é a ilusão da perpetuidade.
Quer dizer, elas estão sempre queimando.
Piscando e desaparecendo...

Mas eu posso fingir
Posso fingir que as coisas duram
Posso fingir que nossas vidas são mais que momentos

Deuses vêm e vão.
Mortais lampejam, reluzem e se apagam.
Mundos não duram...
Estrelas e galáxias são coisas transitórias e fugidias.
Piscam como vaga-lumes
E se desfazem em pó e frieza.

Eu posso fingir que gosto das estrelas
Esperando que alguma delas caia do céu.

sábado, 29 de outubro de 2011

Schopenhauerismo voluntário: poesia em dois versos

" A vontade é a causa de todo sofrimento, uma vez que lança os entes em uma cadeia perpétua de aspirações sem fim, o que provoca a dor de permanecer em algo que jamais consegue completar-se." - Schopenhauer


Todo distanciamento precisa do primeiro passo,
eis que lhe dou agora, por tempo indeterminado.

Para ser considerado

O tempo passa, as pessoas mudam, a sociedade muda, os valores mudam, enfim. A verdade é que vivemos num eterno "processamento" e como já disse Dary Jr. 'o que hoje me dá nojo ontem foi o meu desejo.'
Não lembro de muitas coisas da minha infância. Ao contrário do que geralmente ouço ou leio por aí, não tive uma infância com pipa, gude ou pião. Essas coisas existiram, algumas ainda existem, não com a força de antes, mas ainda firmes em suas causas. Há quem reinvindique para si, pautado exclusivamente em sua própria vivência e, desconsiderando assim, quaisquer outra experiência, o título (se é que podemos chamar assim) de uma "verdadeira infância." Andar descalço ralando os pés, pique esconde, pique pega e outros piques, brincadeiras típicas das ruas fundamentando (mediante a gratuitas opiniões) o que de fato era ser criança. Atualmente, estamos em face da informação. Rápida informação. Os anos passaram e com ele a tecnologia mudou sua cara. Antes: rádio de pilha, difícil de sintonizar. Depois: qualquer coisa minúscula com capacidade para uma infinidade de músicas. Se as crianças hoje, desde cedo, estão a par das redes sociais mais comuns como facebook, badoo, msn, orkut e afins, não há porque nega-las o direito de uma "verdadeira infância". Simplesmente os tempos mudaram e daqui algumas décadas, talvez, elas também reinvindiquem a sua antiga infância impregnada de virtualidade perante a um novo conceito de infância que vai surgir. De tudo que vejo por aí relacionado a essa ênfase nostálgica e a um "infantinocentrismo" exacerbado, tem-se a conclusão, ao menos aparentemente, de que a culpa é dos pequeninos. Não foram eles que trocaram a "Caverna do Dragão" (o desenho sem fim) por "Hannah Montana". Nem criaram "text messages" para se comunicar mais rápido que as velhas "cartas".  Desde Graham Bell até hoje o telefone deixou de fazer apenas ligações e, se bobear, temos modelos que passam até roupa. Essa nova infância inventa suas próprias maneiras de se divertir com o que lhes está à mão. Ninguém em qualquer tempo pode falar sobre a "verdadeira infância", ou melhor, ninguém do século XVIII para cá, pois antes disso infância não existia.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Custa quanto?

Entrou apressado na loja, ofegante:

- Amigo, bom dia!
- Bom dia...
- Este vaso aqui, custa quanto?
- Não custa nada.
- É de graça então?
- Não, só não está a venda.
- Mas eu posso pagar!
- Mas eu não posso vender...
- Então por que está aqui?
- Eu acho bonito.
- É de família?
- Sim, tem um grande valor sentimental.
- E quanto custa seu sentimento por ele?
- Nada, pode levar!

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Esportes para a vida

Não é difícil que se veja por aí aqueles tipos de frase super-esperançosas, dignas de quem está, ou pelo menos se sente, perdendo algo. Pergunte-se, leitor, que malditas frases são estas? Eu digo. Aquelas bem do tipo: "o mundo dá voltas", "ganhar de virada é mais gostoso" e por aí vai a série de imbecilidade. Obviamente eu também sou um crente da esperança. Mas, há falhas em ambas as frases acima citadas. Na primeira é que, se o mundo dá voltas, logo, ele dá voltas. Um tanto redundante, veja bem, entretanto, ele dar voltas significa no contexto da frase que o mesmo não para nunca. Ou seja, se está ruim para você agora, tenha certeza que em breve estará ruim de novo, senão pior. Quanto a ganhar de virada, acho bastante arriscado deixar alguém sair na frente, ou achar isso de alguma forma bom. Por isso não gosto de futebol. Primeiro por ser um esporte coletivo, as vezes você depende mais dos outros do que de si mesmo. E, talvez, os jogadores não prestem de forma tal, que mesmo sendo um gênio da bola, seu time sempre irá mal.Além disso, é um esporte que já pressupõe derrota antes mesmo do fim de jogo. Tenho preferência por esportes do tipo inesperados, tipo sinuca. O adversário sair na frente pode ser uma questão de estratégia, e mesmo assim ninguém pode dizer que ele está vencendo por estar encaçapando mais bolas. É o tipo de jogo que até mesmo o melhor jogador pode cometer suicídio (encaçapar a bola branca). Desse jeito o outro não precisa nem mesmo derrubar uma bola sequer. Em alguns caso, o segundo jogador nem dá sua tacada, pois o primeiro já se mata na tacada de saída. Um esporte que não pressupõe "viradas" espetaculares ou o prazer das mesmas, mas, ao menos, àqueles acostumados a jogar, oferece muitas mais chances de vitória. É um jogo de precisão, individualista e de estratégia, você não pode culpar ninguém por uma má jogada além de si mesmo.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Para Pedro, Pequena Poesia

Parece Pedro Plumar em Pranto
Pasmado, Pobre Pequeno
Pediste Pouco
Pairando Pelo Pescoço a Perfídia
Pingaste Promar
Pelo Pato, Pagou Penas
Perdido, Portanto
Pescava Pálidos Palácios
Penguntando Pois:
- Por que?

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Pescoço e guilhotina

Faça ser
obrigação
um pedaço
como favor
Aí, eu desprezo
paro no caminho
e tanto faz que siga
de vítima, pois
meu estado
é só
então
me veja
mas passe adiante

terça-feira, 6 de setembro de 2011

7 de Setembro (Beto Cupertino)


Para comemorar a minha/nossa independência...

sábado, 3 de setembro de 2011

Enquanto as estações não passam

O texto a seguir é uma homenagem ao meu amigo Cesar Carvalho e a sua descrença sobre os poetas também serem ótimos roteiristas de Hollywood.

Aconteceu comigo, no trem, e foi mais ou menos assim:
Almocei naquele dia mais cedo, precisava cumprir minha obrigação de ir ao centro do rio pesquisar, a boa função de qualquer historiador (ou pelo menos um que se julga assim). Como precisava estar no arquivo por volta de uma da tarde saí de casa no horário habitual em que saía todas as vezes em que ia trabalhar. Houve no meio do caminho um pequeno contratempo, encontrei uma velha conhecida e esta me tomou dois ou três minutos de atenção. Quando ela me liberou segui normalmente meu trajeto até a estação. Eis que quando estou subindo o trem já está parando. Ainda me esforcei numa pequeda corrida escada acima e depois escada abaixo, mas, perdi o trem. Obviamente, maquinado como sempre, eu calculava minha saída de casa contando com eventuais atrasos, logo, me antecipava para que nesses casos eu não me atrasasse (não muito que fosse).  Sentei-me em um banco e liguei meu mp4 para ouvir Gogol Bordello. Em exatos 7 minutos outro tem despontou vindo de Japeri em direção a Central do Brasil. Fui nele. Estava vazio, exceto pelos acentos todos ocupados. Sem querer me direcionei para a frente de um homem do qual analisei não demorar para desocupar o lugar. Por uns instantes não notei a graciosidade que estava do seu lado direito. Quando o fiz, dei por sortudo de observar tão bem que o coroa já ia saindo do trem. Soltou não mais que duas estações depois que eu entrei. De um lado eu estava embasbacado com a beleza da garota que quase a minha frente estava sentada. Ela tinha cabelo liso e cumprido. Era escuros, mas não pretos. Depois, quando sentei ao seu lado, pude reparar que à luz do sol refletia uma espécie de castanho, quase averlhado. Usava óculos com um detalhe em violeta. Aquela desconhecida era tão branca que me dava angústia saber que existia sol. Suas bochechas estavam levemente rosadas, não sei se pela maquiagem ou se natural. Estava entretida ouvindo música diretamente do seu celular. Balançava as pernas suspensas no ar. Não fazia o tipo alta, prova é que seus pés não tocavam o chão do trem enquanto estava sentada. As vezes ela soltava um leve risinho e me pareceu muito aliviada quando o senhorzinho levantou-se saindo do seu lado. Como um rato louco que vai direto no queijo sem se importar com a ratoeira eu me sentei ao seu lado. Ávido! Por um lado eu queria ter continuado a sua frente, só para lhe admirar o rosto, face a face. Tentar pescar nos seus olhos qualquer interesse em mim. Mas que bobeira, era só uma desconhecida. Ao mesmo tempo, me policiava para não olhar tanto para ela, estava com um medo incrível de que meus olhos traíssem meus pensamentos. Estava eu sentado ao seu lado. Nós dois ouvindo música. Sentia que assim tínhamoos alguma coisa em comum. Talvez eu até perguntasse a ela o que estava ouvindo. Tão logo ajustei o volume dos fones ela tirou os dela. Se inclinou para frente se apoiando nas mãos, que por sua vez tinha os cotovelos apoiados na bolsa que estava em suas pernas. Fechou os olhos. Eu não podia acreditar que ela ia dormir e não olharia para mim. Pois é, se não falei, falo agora. Até aquela hora ela não tinha olhado para mim. Parecia que o sono dela tinha passado pra mim, mas não fechei os olhos, me negava a perder qualquer momento de vista aquela figura. Levantei os braços tentando me espreguiçar e não incomodar nem a bela adormecida, nem a minha vizinha da esquerda. Apoiei meu braço direito então no espaço entre as costas da desconhecida e a janela. Chegamos em cascadura. Ela se mexeu um pouco, achei que ia levantar. Eu estava torcendo para que as estações não passassem mais, podia ficar ali daquele jeito o resto do dia. Melhor ainda foi quando ela caiu no meu ombro. Se recostou no ombro pegando também parte do meu peito. Um frio me correu na espinha. O coração acelerou. Eu não acreditava que aquilo estava acontecendo. Ela não podia ter pegado no sono tão rápido. Milhares de pensamentos passaram na minha cabeça. Achei que era um sono fingido só para se aproximar. Depois concluí que só estava mesmo cansada. Cheguei a pensar que tinha morrido e caído de lado. Entretanto, recostada em mim ela ficou até a Central. Quando lá chegamos ela despertou num susto. Olhou pra mim com uma cara de interrogação. Provavelmente eu lhe devolvi a interrogação. Ela sorriu e descupou-se. Botou a bolsa nos ombros e seguiu seu rumo quando as portas se abriram. Eu fiquei ali sentado imaginando que deveria tê-la pegado na mão e agradecido por aquela prazeirosa viagem. Foi uma paixão entre estações. Uma paixonite de trem, que tão logo veio logo passou. Foi rápido e não me feriu. Jamais ei de esquecer.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Alguém chamado Neto

Fazia tempo que sua vida se resumia em assistir o tempo se arrastar. Acordar passou a ser um fardo que o jovem escondia sob sua face tranquila. Vezes tinha tanto ânimo que era capaz de sorrir as mínimas bobeiras de um dia. Outras não queria sair de seu lugar, enclausurado pela sensação fugaz de um vazio que parecia se alimentar de sua energia. Fosse como fosse, parecia um corpo sem alma. Tinha os olhos fundos e espertos. Seu ar de cansado lhe oferecia traços de intelectualidade. Fazia dias que a barba crescia e que sua aparência não mais importava. Parecia estar vivendo num estado de semiconsciência, uma espécie de coma as avessas. Flagrava-se muitas vezes andando sem rumo pelos cômodos da casa. Ia do quarto para a cozinha, parava e nada fazia. Então sentava na sala e ligava a tv em qualquer canal. As imagens distraíam-no, muito embora ele já não fosse capaz de acompanhar as rápidas sequências que via. O rapaz estava desnorteado e sabia disso. Pensar numa solução lhe constrangia a pele, tudo apontava para um fim solitário. De alguma maneira, doentia talvez, ele desejava o fim. Ao mesmo tempo queria também viver. Para ele estar vivo era diferente de viver. Ou pelo menos diferente de viver em função de alguma coisa. Justamente isso o desprendia a atenção: viver em função de algo. Existia sempre um pormenor. Um detalhe não resolvido. Uma folha para assinar. Parecia que para ter vida precisava de aprovação. De fato precisava. Tinha plena noção do sistema do qual fazia parte, e em maior ou menor grau contribuía para ele. Falava de burocracia, mas era lá um burocrático. Metódico. Odiava se atrasar, pois afinal não tinha tempo a perder. Entendeu cedo que o tempo não pertencia a ninguém. Mesmo assim era pontual. A cada dia que nascia ele tentava fazer nascer em si a esperança. Buscava-se num autoconvencimento admirável. Muito me emocionei vendo esse jovem lutando contra seus próprios pensamentos. Entretanto, não demorava muito, logo tudo parecia gasto. De repente os objetivos passaram à hábitos. Estava sendo domesticado. Sua voz prendia, olhava para os lados e qualquer um que pudesse vê-lo incentivava isso. Preferiu, de uns tempos pra cá, ser uma sombra de si mesmo. Levantar o polegar num gesto de aprovação e sorrir, como se no fundo concordasse. Fingia paciência com aqueles que lhe fingiam atenção. Ninguém podia entendê-lo e ele não conseguia se expressar. Como eu queria poder dizer a ele: "Olha, eu me compadeço de sua dor. Não queres tu dividi-la comigo?" - Provavelmente ele diria não... e fim.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Aos sete anos...

...quebrei o meu primeiro brinquedo.
Desde então não parei mais.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Veja só você

Bem, veja você onde chegamos. Não que isso seja um triste fim, lembre-se de que alguém deve sofrer a dor de ter se doado mais. Peço que não aponte-me o dedo, eu avisei antes de começar que não iria dar certo. Eu não fui feito para durar. Sem querer eu fui um cenário atraente, desafiador, vá saber o que se passou em sua cabeça. Ainda não sei se você sofre pelo que não pudemos ser, ou, se sofre por não me ver sofrer. Inclusive é o contrário, estou muito bem com nosso fim. Até comecei a beber café. Quando você me ligou chorando, me desculpe o deslize, mas esbocei um sorriso. Achei graça não ser eu naquela situação. Achei graça por já ter estado naquela situação. E quantas vezes nós fomos e voltamos, só para confirmar cada vez mais que nossos lugares não corriam paralelos. Nem apontavam na mesma direção. Ouvi gritos, entre os gritos as promessas, entre as promessas, frustrações. Eu te beijei na testa e sussurei "adeus" em seu ouvido. Fiquei por tempo suficiente pra te ver cair. Fui no limite só para te ver quebrar. Meu prazer não foi na sua dor, mas sim apunhalar nosso já desgastado... como é que se diz...(?) amor.

domingo, 28 de agosto de 2011

Fui escrever e desisti

Estava eu transtornado quando me pediram para escrever sobre...
Pensei por alguns instantes. Corri para pegar um lápis e papel. Parei sobre a mesa e esbocei as primeiras palavras. Elas foram mais ou menos assim: "...!". Achei uma verdadeira porcaria e apaguei.
Dei leves pancadas com o lápis em minha cabeça. Depois mordi a parte de metal onde fica a borracha.
Recorri as novas palavras nunca antes usadas. Recorri as palavras difíceis do dicionário também.
Resolvi que para falar de... era necessário parnasianismo.
Tentei sonetos, versos decassílabos, dodecassílabos. Mas eu não saí do monossílabo.
Deixei para lá as regras. Tentei comparar a natureza. Eu quebrava a ponta do lápis, eu apontava o lápis e nada saía. De transtornado fiquei distraído e depois frustrado.
Rasguei a folha toda suja com a fuligem do grafite pela força da borracha.
Uma folha branca agora em tons de cinza. No lixo.
Fui dormir e desisti de escrever.
Assim, sem mais nem...

terça-feira, 23 de agosto de 2011

A incansável busca do nunca

É um caminho tortuoso. Periódico. Frequente. Habitual. Sem descanso. Pautado apenas em fé. Esperança. Aquele "talvez um dia consigamos". Um caminho que só para quando a vida finda. Ou quando desistimos de caminhar. Ainda assim, está por vir. Está acontecendo. Processando. A todo momento tudo é uma passagem. O nunca se reveste. Assume várias formas. Você, eu, somos um caminho perpétuo para um fim. Seguindo numa estrada onde tudo fica para trás. Nós somos a crença inocente de que tudo vai dar certo. De que há sempre outra chance. Somos um trajeto. E também a trajetória. Corpo, ação e lembrança. Só o que dura são as lembranças. As percepções que os outros tem sobre nós. Eu sou um para cada um que conheço. Transição. Constante. Óticas diversas. Um estado. Sou um caminho figurativo. Uma busca do nunca.

Lapso

Eu então pedi tristonho: "senta aí, fica um pouco mais..."
Você tapou os ouvidos, me deu as costas e saiu pela porta. Confesso que pensei em ir atrás, mas nesse momento minhas pernas já não respondiam ao meu cérebro. Fiquei extasiado, na cadeira, sem sentir um centímetro sequer do meu corpo. Achei até que meu coração tinha parado. E talvez tivesse. Levei uns minutos, que se transformaram em dias, que passaram a meses, para me dar conta de que você não voltaria. Realmente não voltou. Escrevi um carta, mas não tinha seu endereço. Peguei o telefone, não tinha seu número. A única coisa viva em minha lembrança foi você saindo, o único traço de verdade foi seu desprezo. Naquele instante eu morri, sentado na cadeira, inane. Esperando que o tempo fizesse algo por mim. Que me estendesse a mão. Mas, ele não o fez. 

domingo, 14 de agosto de 2011

Fernão Capelo Gaivota

Um bom livro. Pequeno e fácil de ser lido. Mas não é por isso que ele me foi tão bom. Depois de mergulhar na madrugada em uma certa de conversa, naquele mesmo dia, mais cedo, me ofereceram o livro. E depois de tanto falar, quando eu já não conseguia ver direito as horas de tanto sono. Comecei a lê-lo. De repente eu não queria mais dormir. Mesmo assim o fiz. Deixei a leitura para o dia seguinte e em pouco tempo consumi todo o livro. Fala-se sobre os limites, os limites das gaivotas. Limite não se trata mais do que nossos pensamentos presos ao nosso corpo. Somos organizados em tempo e espaço. Se pensarmos que estes não existem seremos ilimitados. Não é uma tarefa fácil, mas eu acreditei no tipo de "lição", não daquelas forçadas, que o livro apresenta. Tratava-se além disso de um "hino a liberdade". Manter o coração leve com a certeza de que somos um traço de perfeição. Incrível como a leitura coube muito bem com a minha conversa da madrugada. Ele me foi oferecido com o discurso de que é um Livro Livre, damos para alguém e este alguém após sua leitura passa para outra pessoa. De alguma forma senti que o acaso se articulou mais uma vez. Não sei bem como terminar este texto. Então, recomendo-vos a leitura do livro. Sob o título "Fernão Capelo Gaivota."

sábado, 6 de agosto de 2011

No trem

arroz roxo
ar roxo
arroxo
a rocha
arroxa
a tocha
atoxa
xato

xota
Xato!?
sim!
normalmente usaria 'ch'
mas eu quis errar

Vale a pena (Gram)

Decorava torturas demais
Só pra bailar com a dor
Se provocava com medo de estar vazio
Até se encher de si
Ganhou no prejuízo e agora vai investir
Ser feliz não é tão comum
Vale a pena
É o que ouviu dizer

Outra dose de lágrima vai usar
Pra chapar a paz
O vício pela mágoa não lhe faz mal porque
Ser feliz não é tão comum
Não se esquiva mais
Veio aqui pagar pra ver
Fazer valer a pena
É o que sempre quis

Quem vale mais?
Quem é que sabe viver?
O feliz ou o não?

Se a vacina é de solidão
Ninguém vai te envenenar
O oceano que te afundar
Será teu navegador
É o que ouviu dizer
É o que sempre quis

Ninguém va esfoliar
Uma casca de correção
Ninguém vai desiludir
Uma cara-de-pau feliz

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

auto convencer-se

Onde você estava, enquanto os dias passavam pela minha janela?
As coisas que você dizia me rodeiam o tempo todo
Parecem armadilhas atraentes que me distraem
Hoje procuro seu adeus só pra dizer que não preciso mais dele
E sua indiferença é um prato que você come fria e sozinha.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Romance Juvenil Operário (Terminal Guadalupe)

É tão cedo e já me sinto bem cansado
O café não reanima e eu tenho de trabalhar

Mas eu vou
(Mãos à obra então)
Cosquistar
(É a redenção)
Seu amor
(Ter por quem lutar)
Meu lugar

Prometo em verso e proza
Te dou a rosa no caminho
O espinho enfrentarei
Se a vida faz sentido
Venha comigo é destino
Desatino eu não sei
No caminho acovardei
Nem desisti

O dia chega sempre em ônibus lotado
Você não me reconhece só respira o mesmo ar

Mas eu vou
(Mãos à obra então)
Cosquistar
(É a redenção)
Seu amor
(Ter por quem lutar)
Meu lugar

quinta-feira, 21 de julho de 2011

No seu lugar

Um invasor
Causando leve ameaça
Nada causando
Um bom rapaz
Que nos desvios da vida
Sem relevância se tornou
De culpas difíceis
Para assumir
Vistas condenativas longe de cessar
Bastou-lhe dois ou três
Ninguém julga por ser reto
Justiça compreensível
Mas pesada
Fardo não simples de suportar
Esperança em frangalhos
Seu desejo se abala
O acaso parece distante
Outro dia
Outra vida talvez
Para ajustar um velho invasor
No seu lugar

domingo, 10 de julho de 2011

Meu rim por Natasha


Casei.
E logo no primeiro dia da lua de mel tive um sonho.
Na verdade, fora um pesadelo.
Eu amava Natasha.
Mas no sonho ela enfiava uma faca em minhas costas.
Mais precisamente na coluna.
Não me matava só me imobilizou
Enquanto isso eu via tudo.
Com a frieza de um cirurgião ela arrancou-me um rim.
Deu pontos de marinheiro
Nem ligou para os lençóis sujos de sangue.
Colocou um sorriso de lado
E saiu com meu rim.
Acordei de sobressalto.
Verifiquei se não havia cicatrizes em mim.
Não as tinha.
Liguei para meu advogado
Acordei Natasha
Pedi o divórcio.
Larguei o amor da minha vida
Só por causa de um sonho ruim.
Que idiota, disseram todos.
Meses depois Natasha fora presa
Acusada de traficar órgãos na fronteira Brasil-Paraguai
Isso explicava suas semanas de ausência
Desde então trancafiei meu coração
E prometi não mais amar.
Preferia perder um rim para Natasha
Do que perder meu coração de novo para o amor.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Beatriz

Há tempos me apaixonei por Beatriz
Como morri de amores por aquela mulher
Era atordoante dormir pensando nela
E sonhar um belo sonho com a sua figura
Meu coração se aquecia de ouvir seu nome
Enquanto eu sorria que nem criança
Ao saber que o seu batia por mim
Beatriz não era loira, morena ou ruiva
Talvez ela nem fosse desse mundo
Me apaixonei por uma verdadeira ninfa
Dessas que os poetas se entregam
Dessas que os poetas comparam as frutas
Pele de pêssego, beijo com gosto de maçã
Ah, quanta frivolidade...
Bia era uma salada de fruta completa
Com gotas, na medida, de leite condensado
Minha paixão arrancou minha alma
Com a alma se foi a paixão e sobrou a dor
A mulher dos meus sonhos
De beleza preternatural
Enfiou suas mãos
Com dedos compridos
E unhas ajeitadas
Dentro do meu peito (que pulsava)
Ah, como pulsava (meu coração)
Ainda teve audácia de afagá-lo
Antes de destroçá-lo sem dó
Como um gigante
Que de força descomunal
Estraça-lha uma rosa da primavera
Morri de amores por Beatriz
Bela atriz
E assim fui...
Infeliz

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Um pouco sobre perdão.

Muitos sabem que não sou um homem de muita fé no transcendente. Entretanto, coincidentemente a certas situações na minha vida, tive a curiosidade de ler uma passagem do Livro Ágape, do Padre Marcelo Rossi. Não sou católico, budista, protestante ou publicitário para fazer propaganda. Mas, algum tempo atrás, uma pessoa me indicou a leitura de um capítulo deste livro. Aos curiosos, é o capítulo nono sob o título: "Amor fraterno", talvez transcreva algumas partes para o blog futuramente. Naquele tempo em que li o tal capítulo, acreditei piamente que aquela pessoa que o havia me indicado sabia, sentia e seguia o amor puro passado na obra do Padre. Neste mesmo livro, temos um capítulo sobre a capacidade de perdoar, exemplificado numa passagem bíblica sobre a mulher adúltera, fonte do conhecido axioma: "quem não tem teto de vidro que atire a primeira pedra", ou mais religiosamente falando: "quem de vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra". Perdoar... não é uma capacidade divina. Não cabe apenas a Deus tal responsabilidade (considerando que exista um Deus). O perdão é humano. Um código de absolvição para qualquer mal feito mediante ao arrependimento posterior. Pouco compreendo da vida religiosa, mas independente dela, alguém que um dia me apontou o que é o amor não sabe hoje o que é perdoar? Enfim, segue abaixo a transcrição de alguns trechos dos quais achei interessante no capítulo sobre perdão do livro Ágape:
"Outro detalhe importante dessa passagem da vida de Jesus é o seu olhar para aquela mulher condenada. Ela buscava um olhar de compaixão. Ela sabia que não havia como se livrar daquela condenação. Mas a voz de Jesus afastou os seus acusadores. Ela ficou sozinha com Ele. Só Ele teria o poder de condená-la; afinal, Ele não tinha pecado. Ele teria o direito moral de condená-la. Mas não o faz. Ao contrário. Seu olhar confere a ela outra oportunidade. É a esperança. Ele permite que ela vá e amorosamente sugere-lhe uma nova vida." (ROSSI, p.60)
 "É uma nova chance. Uma nova oportunidade. É o amor, e não o ódio, que tem o poder de restaurar, de restabelecer o que ficou perdido na história de cada um." (ROSSI, pp.60-61)
Amigos e amigas, enfatizo que não sou um homem de fé para as coisas além da terra, das passagens transcritas tenho as minhas próprias críticas. Não quero evangelizar ninguém, nem espalhar a palavra por aí. Só deu-me vontade de tomar o mesmo meio a qual me orientaram que seria o amor, para, agora do outro lado, orientar sobre o que seria o perdão e de como ele depende de nós. Ao contrário, não teria lógica o "perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido". 

quarta-feira, 6 de julho de 2011

terça-feira, 28 de junho de 2011

À minha suja amante

Tem-se cálido o que é meu peito
Hoje é o dia da transação.
Transa, ação. Às minhas sujas amantes.
Não me excita o zelo da dona de casa...
Sua comida até que é boa, mas o tempero da rua tem sido melhor.
E não é pelas pernas peludas nem pelo cabelo descuidado.
Também não é pela verruga ou a pele maltratada.
O motivo não sei, talvez o nojo de me sentir preso
A um monstro castigado pelo tempo.
Minhas amantes não envelhecem, elas se renovam.
Um dia loiras, noutro negras, as vezes ruivas. Todas de pele lisa como seda.
A elas dou o carinho que falta em casa.
Dou-lhes presentes deixando dívidas que sobram em casa.
Preencho fisicamente um espaço que falta no coração.
A verdadeira amante suja lava a minha roupa.
Beija minha boca e se sente culpada pela minha rejeição.
É impossível ter algum afeto por esse tipo de animal.
Dela eu só espero a casa arrumada e comida na mesa.
Escrevo hoje para as belas da rua, e se existe algo de bom mim
Com certeza ficou dentro da puta nua, num quarto barato com baratas a espiar.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Subverso

Você esconde em meias palavras
Uma verdade que não coincide com a realidade
E subverte o que não convém
Até que se transforme em cinzas
Um coração vermelho, por tanto tempo queimou.

Me limita e profana toda dor recente
Que se toca por um lado, imediato ou próximo.
Tratando o dom da melancolia
Como um sol que não ilumina o dia

Reflete sua dor em meu peito
E chorando minhas lágrimas de outrora
Culpa as estrelas que um dia foram suas
Num céu que pintei pra você

Será feliz no caminho que escolher
Como quem vende sonhos
Para se consumir depois.

Será feliz no caminho que escolher
Queimando ou limitando, seu coração.
Demasiado perto de cessar.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Mais perto do fim

Desejo forças para continuar
Ainda que minhas pernas cansem
E que o sonho não seja real
Mesmo quando minha vontade de vida se esmiuça
Estando perto do fim, meu desejo dele aguça
Ardendo-me o peito cada vez que respirar
Falhando em mim os sentidos
Com meu pensamento indo solto por lugares obscuros
Simples cansaço mental, um fato, assim fatal
Ter fé!
Não sabendo no que
Ou mesmo para que
Apenas sustentar em mim
O fio terno que me faz viver

terça-feira, 14 de junho de 2011

Soluções

Parte 1

Estava com sede...
Busquei um copo d'água
Não o bebi todo de uma vez
Enquanto lia dava umas goladas
De imediato colocava-o no chão
Tão distraído com a leitura
Esqueci do copo, da água e de beber
Deixei uma almofada cair
Numa reação em cadeia
Logo o copo ela derrubou
Ele estava meio cheio
Ou meio vazio
Mas, estava com água

Parte 2

Como nas fases da vida
Procurei um pano pra me redimir
Queria todo o chão secar
Mas tão cedo desisti
Resolvi nada fazer
Ouvi as reclamações
Me entreti em trabalhos
Dei uma volta na rua
E esqueci do chão molhado

Parte 3

Quando voltei, que surpresa
Mal me lembrava do ocorrido
Sentei-me ao mesmo sofá
E outro livro comecei folhear
Percebendo em meu inconciente
Que o chão estava seco
O tempo encarregou-se de secar
Não foi preciso pano
Somente paciência

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Distante, você...

Não soube olhar pra trás
e ver o mal que me faz
ser parte do seu adeus.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Quando a poeira baixar (Cesar Carvalho)

Nem sei o que pensei de ti
Só sei que não contei com o fim inesperado
E agora o que faço é crer
Que posso até viver sem você

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Amores certos em tempos errados

Não é difícil que se compreenda o problema exposto no meu título. Amei duas vezes em duas décadas de vida, não sei se é muito ou se é pouco, mas, posso dizer que foi amor. Duas formas bastante peculiares de desse sentimento em dois tempos que insistiram em não se encaixar com aquilo que eu era, ou, com aquilo que me tornei. Tornou-se senso comum, e é cabível que se admita: todos mudam com o tempo. Em seus níveis mais variados somos bombardeados por tais mudanças, algumas tão mínimas e rápidas, fenômenos imperceptíveis aos nossos sentidos tão limitados. Então, é certo que eu mudei com o tempo, entretanto o tempo pareceu fechar os olhos para mim. As chances, digo no campo sentimental, que eu deveria ter há, talvez, cinco anos atrás, me apareceram aos vinte. Justamente quando eu me encontro enclausurado em camadas, que alguns diriam frias, para poder aproveitar tais chances. Por outro lado, a oportunidade que eu tive aos quinze deveria ser me dada agora que não sinto em mim o fluxo nas veias ou mesmo inflamar meu peito. Não darei nomes em minha história, mas creio que boa partes dos meus amigos, que são também leitores dos meus escritos conheçam, pelo menos de “ouvir falar” os personagens.  

Existiu um David tímido, com problemas sérios de auto-estima e muito sentimental, daquele tipo que acredita na instituição casamento, dois filhos, um cãozinho, carro na garagem, emprego bacana e uma vida feliz. Esse rapaz encontrou, por sorte ou não, em sua primeira namorada o amor. Nesse tempo essa palavra tinha tanto significado, era repleta de pensamentos e medos, naquele tempo eu acreditava que poderia definir meu nível sentimental, independente das ações, com apenas quatro letrinhas. Foi meu tempo errado para a pessoa certa. Ou, meu tempo certo para a pessoa errada. Em resumo, só o que consegui foram marcas, sofrimento, e tudo isso com o agravante de eu ser um menino. Sim, inexperiente em todos os sentidos, atraído e assim traído, sustentado pelos pais e acolhido por eles, foi um golpe cruel, porém não mortal. Ouvi dela que minha vida seria melhor sem ela. Um das poucas coisas daquele tempo que hoje eu admito ser certo. Parcialmente, pelo menos, não foi mortal. Pessoas dizem que uma parte de mim morreu, entretanto, eu acredito mesmo é que uma parte de mim despertou e daí sigo para o próximo erro temporal.

Existe um David não mais tão tímido. Extremamente articulado. Aparentemente sempre disposto com aqueles que o procuram. Que “ama” seus amigos com força e que aprendeu a usar aspas quando se falar de “amor”. Aspas porque não existe amor. Não enquanto forma, enquanto algo mensurável. Quando se fala em amor ele simplesmente deixa de existir, pois não é algo discutível, não é imanente. Ele é transcendente e abstrato, assim como Deus, por exemplo. É uma questão de fé tê-lo. Uma crença não necessariamente racional, mas que nos move a continuar passivos. Parece contraditório, talvez seja isso mesmo. Amor é uma palavra que engloba uma série de ações e outros possíveis sentimentos, por excelência ele é sintético. Como podem ver, e por diferentes óticas, meu senso parece frio. O “castelo glacial”, diria um grande amigo meu. E é nesse tempo de “indisposição sentimental” que encontrei o segundo “amor” da minha vida. Em tempo achei que seria “daqui até a eternidade”. Eternidade finda, isso também aprendi. Em quantas mesas de bar e quantas vezes repeti: qualquer homem são pararia com ela. Parar no sentido de, por fim, querer algo sério, seguir a ordem comum das relações: namoro, noivado e casamento. Era de me gabar por ter encontrado alguém tão inteligente, bonita, compreensiva e principalmente amiga. Amizade essa que ruiu e do que era lindo sobraram os escombros. Culpa do tempo. Não me culpem por culpar o que não existe. Por definição nós inventamos o tempo, ainda assim lhe culpo. Poderia tomar pra mim a sentença, mas, se me tornei tão frio, então porque eu me importava tanto? O amor também é inventado, e meu segundo amor em tempo errado fui eu que construí. Quem poderia me apontar e dizer que não amei, se por vezes a outra parte da relação me dizia ser feliz comigo e que não enxergava um futuro sem mim, ao menos como amigo? Não foi a espécie de amor louco que tive primeiramente. Estava mais para uma passividade que vislumbrava a leveza entre os dois, sem chateações que pudessem desgastar uma relação que não se apoiava apenas em “amor”, mas no conjunto de coisas a qual definimos, mediocremente, com um verbo. Amor é um verbo que estraçalha o sujeito e lhe muda os predicados, talvez essa seja a melhor forma de sintetizar o que me aconteceu nos dois tempos.

Ironia do destino, ou não, no primeiro caso ser correto me rendeu tal dor e introspecção que por tempos achei que podia odiar. Mas, só me tornei indiferente. E se por muito tempo nada realmente nada significou, no segundo caso eu sentia e fazia muito, embora eu não possa dizer que foi amor, não da forma quadrada e tradicional que enxergam o amor, havia algo diferente. Eu me importava e sentia antecipadamente as dores de um futuro sem a presença daquela mulher. Próximo ao fim eu estava tão perdido, mas, ainda assim firme, afinal chegou um momento em que todo frescor agora doia como brasa em pele. Como no primeiro fui também correto e por isso, contradizendo qualquer lógica, passei de uma "vítima dos sentimentos" para ser o "carrasco" a mando deles. Meu segundo “amor” foi assim, entre aspas. Era meu cuidado em ter sempre cuidado. Aceitar o necessário e ser mais comedido. Acordar bem sentindo a suavidade em meu peito, ao contrário de batimentos atordoados e de preocupações sem sentidos. Se no segundo também chegou o fim, foi só essa falta de loucura que eu tive no primeiro, meu ímpeto antes de me anular em prol de tudo dividindo agora espaço com meu amor próprio. Foi uma falta do tempo e também minha por não ter conseguido manter o garoto de quinze anos na minha estrutura de vinte. O que começou para ser um poema termina agora parecendo um desabafo. Não sei o quanto o que contei se aproxima do clichê, mas, aconteceu. Se tiveram saco para ler até aqui, bem, obrigado.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

domingo, 8 de maio de 2011

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Sete meses

Sair na rua ao encontro da louca, perdida, sadia
Com os peitos firmes no lugar e beijos com marca de batom
O cheiro era de roupa usada, mas ainda assim usei
Na rua vadia consegui em sete lances o que não me deu em sete meses
Em quase sete horas morri de amores que não tive por sete vezes
Sua pose reta, tão séria, tirando a mão daqui e dali
Tem quem diga que era para casar, então que se casem com a fera
Levando nas costas o pacote completo, a mala familiar sem alça nem rodinhas
Sincero mesmo foi acabar, antes que acabasse comigo.

sábado, 30 de abril de 2011

Metade do caminho

Corri sem rumo, como quem traga o fumo por prazer
Por prazer me traga um rumo, corri sem prumo
Sem fim nem afim, tanto por mim quanto ninguém
Fui além, do fim e de mim, traguei meu rumo
Mastigando o fumo para cuspir por mim
Cansado eu fui, faltando ar e chão
E do infinito desejável alcancei metade
Parei no meio onde enxergam fim.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Rondó (Pedro Rezende)

"You've got a friend in me"
Randy Newman

Quando aflito estou, tu falas
e me calas o sofrer.
Por eu ter um grande amigo,
sei que sigo sem temores.

No Altruísmo tens teu lema:
"Não deixai jamais o irmão
tragar pó de solidão".
Em teu tema, vive ardores.

Uma estrela mora em ti,
generosa qual Teresa;
Uma chama vive acesa
bem aqui por entre flores.

Quando aflito estou, tu falas
e me calas o sofrer.
Por eu ter um grande amigo,
sei que sigo sem temores.

Na bebida, um riso ferve;
Na alegria, sossegamos;
E em vitória brindamos
Toda a verve dos amores.

Dediquei-te este rondó -
Tens um nome que é de rei;
és poeta e tens a lei
de não só viver de dores.

Quando aflito estou, tu falas
e me calas o sofrer.
Por eu ter um grande amigo,
sei que sigo sem temores.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Um passo.

A qualidade do que é perfeito torna-se um passo para a solidão.
Um caminho mal traçado, de percalços e sinuoso
Pronto para fazer derrapar um descuidado coração
Você põe o dedo na minha cara, disposto a ameaçar
Alguém que só carinhos te ofereceu.
Sentimentos leves doem mais que socos no estômago.
E pode até gritar enquanto me bate, eu não vou chorar.
A qualidade de um rosto inxado torna-se pó de arroz...
Maquiagem foram as noites que fingi prazer na cama.
Pode pegar a arma e declarar seu suicídio de justiça pessoal.
Eu só quero a liberdade de não ter você me pressionando num murro certeiro.
Caseiro, costumeiro, derradeiro. O seu fim é meu brinde a perfeição.
E um desastre, como acertar o olho na maçaneta da porta é só um detalhe.
Óculos escuros e um sorriso convincente podem disfarçar um passo para a solidão.

sábado, 16 de abril de 2011

Conto de passagem para o céu

Morreu depois de beber, foder e tentar se matar. Morreu não sei de que, mas se olhasse para o tribunal, ele estava lá. Priva-lo-ei de expor sua identidade, em detrimento disso chamaremos o dito de Uíliam Maltose. Ou só Uílam, como queiram. No princípio, ao contrário do que diz Gênesis, Deus fez o mundo. Nisso Gene estava certo, mas, o mundo não era bom. Antes mesmo de criar bonecos de brincar, o Senhor todo poderoso, oniciente como só, sabia que a criação seria um desastre. O que fez então o altíssimo? Destruiu aquilo que seria uma vergonha para si? Não. Claramente que não. Ele criou um tribunal. A função desse tribunal era parecer o mais justo possível às almas, mas, fim ao cabo, no exato momento da morte uma setença já se tinha. Pela sua idade avançada e sofrida vida de acompanhamento a minuciosos detalhes mundanos, Deus sofria de incontigência urinária. Uma informação deveras importante e que determinará o destino de Uíl. De Uíliam foi para Uíl, mania nossa de abreviações. Por falar em abreviações, volto a primeira linha dessa narrativa. Uíl tentou abreviar sua passagem na terra. Mas sem o êxito dos verdadeiros suicídas, conseguiu apenas: um pescoço marcado por corda, algumas cicatrizes no pulso e uma coçeira desmedida nas regiões íntimas de seu corpo (fato ocasionado pela tomada abusiva de um determinado remédio, Uíl nunca foi muito de ler bulas, quanto mais os efeitos colaterais.) Foder nesse caso tem sentido literal e figurativo. Excelente golpista que era, Uíl conquistava as coroas e usurpava sua grana. Bêbado por natureza, o jovem rapaz virava um hábil boxeador feminino quando estava embriagado. Esses são apenas alguns dos possíveis pecados dos quais o Diabo podia se utilizar para levar a alma de Uíl para o inferno. Citando o cão, devemos trata-lo aqui com respeito. A figura que se tinha no tribunal era esbelta, de feições frias e até bonitas. Seu rosto era impassível, não era possível notar se pertencia ao sexo masculino, feminino ou se não tinha sexo. Falava com uma voz de veludo, dessas bem suaves que parecem música aos ouvidos. O cheiro de enxofre sempre fora balela contada pela(s) igreja(s). Era um cheiro de rosas, flores, o que talvez pudesse, bem de longe, associar-se a cemitérios. O diabo estava ansioso, era hora de levar uma alma mais para o submundo. O julgamento começa atrasado. Aguardavam todos a presença do não tão onipresente assim, Deus. Diabo ataca mostrando a lista métrica de pecados, erros, ilegalidades, amoralidades, cometidas por Uíl. Aquilo que o Demo não sabia era que, Uíl era um devoto do senhor. Sim! Uma reviravolta em nossa trama... Uíl era o famoso pastor "edificando a Cristo nosso Senhor", concedia muitas vitórias, curas e cestas básicas, tudo em nome do Poderoso. A cada erro cometido,  Uíl imediatamente pedia perdão e tão logo era absolvido. O diabo ficou em fúria. Apelou para sua última cartada. Narrou que momentos antes de sua morte, Uíl havia pecado como o mais vil ser humano do mundo e não havia tido tempo de pedir perdão. Foi nessa momento que Deus se levantou para mijar e por isso o atraso no julgamento! Preocupado em balançar o instrumento, o Digníssimo não esteve atento a falha de Uíl, logo, se não viu não aconteceu. Impelido e obstinado a não deixar o Diabo vencer a batalha argumentativa, Deus aplicou a sentença que destinava a alma de Uíl a compadecer no céu juntamente com 72 virgens. Enlouquecido, furioso, soltando fogo pelas ventas, o Diabo lhe acusou de injustiça. Deus replicou dizendo que ele era a justiça. O Diabo voltou com o rabo entre as pernas, enquanto Uíl, mais um sujo pecador, adentrava no céu.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Mulher Bomba (Beto Cupertino)

Se eu pudesse surpreender
O seu sono com um pouco do sonho
Com o que você me infernizou
Quando se mudou
Que eu espero de você é uma morte bela
E que haja beleza na morte do que a gente foi
E nem sempre há
O que é bom pra você, não é bom pra mim
Porque o que é bom pra nos 2 é tão ruim?
Eu sempre volto a rir, quando você sumir
Dizer que há maldade em fazer o que eu sempre quis
É não ter bondade pra ver o que eu sempre fiz
E eu sempre volto a rir, quando você explodir
Então pegue seu rabo e vá oferece-lo bem longe
Pegue seu carro e vá pra algum lugar bem longe
Pegue seus peitos e vá oferece-los bem longe
Pegue seu carro e vá pra algum lugar bem longe

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Parte do fim

há beleza no fim...
é preciso enxerga-la quando tudo mais já não funciona
quando os sorrisos do outro são facadas na sua alma
deve existir beleza em não se ter um porto seguro
ter seu barco sempre a deriva
sem a preocupação de se esconder do sol
sob as telhas de um amor furado
como se o porto seguro fosse meu, mas nunca tivesse me pertencido
e eu só pensasse em tacar-lhe pedras em vez de reforma-lo
lá eu não podia aportar, o que faria então?
eu navegava, compartilhando alegrias e tristeza com amigos
não que isso fizesse parar a quase dor que eu sentia
digo quase porque dor é sinônimo de amor
se eu não tive amor também não teria dor
foi só um pequeno arranhão na estrutura, nada que me faça afundar
e daquele sol se pondo no mar eu só espero uma morte bela



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Obs: no trecho sobre "uma morte bela" faço honras ao autor da ideia Beto Cupertino (mesmo que ele não saiba da existência desse blog), em sua letra "Mulher Bomba", que em breve será postada aqui

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Arranha Céu

Observava através das janelas o movimento da vida do lado de fora. A gravata apertava seu pescoço, sua fé afrouxava a imaginação. Sentia que mesmo numa cadeira giratória, se fechasse os olhos, poderia girar pelo mundo. O sol já se preparava para dormir, uma vista maravilhosa, se não fosse os prédios em volta.
De terno amarrotado, só queria descalçar os pés e se jogar na cama macia. Por hora continuava observando, mudou o foco para dentro de si. Ali pode notar coisas grandiosas, de tal forma que não seria possível mensurar.
Descobriu um verdadeiro mundo por trás dos seus próprios olhos. Nunca tinha se visto tão de perto, era assustadora a precisão do traços. Sentiu vontade de respirar o mormaço da chuva que antes limpou as janelas.
Prensado pelo paletó que não lhe dava descanso, somente inquietação. Seu corpo se consomia enquanto tirava as roupas e saltava em pares os degraus para cobertura; Era mais rápido subir, estava nas alturas, num arranha céu, literalmente. Decidiu que arranhar o céu não seria apenas particularidade dos prédios. Todo limite e falha por detrás das janelas irrompiam naquele lugar. Correu sem a preocupação que lhe seguia tombar e da beira pulou para imensidão azul. Sem gravata, paletó ou janelas. Vislumbrou o sol, enquanto pairava no ar. Finalmente arranhou o céu com suas unhas bem cortadas e polidas. Em tanto tempo de existência, pensou consigo, aquele espaço azul jamais recebeu melhor carinho. 

sexta-feira, 25 de março de 2011

Melhor que todo lugar (Anderson Freixo)

Xingú
Bangú
Itú
Pra tomar
Mas David não quer
David só toma no Cu.

terça-feira, 22 de março de 2011

Amigos em terra e amigos no mar.

O mais que bacana

Um bacana não precisa ter dinheiro. Essa é a realidade do meu amigo bacana. Saímos para tomar cerveja, para isso sempre arrumamos um qualquer. A verdade é que o adjetivo bacana ainda se faz pouco para definir essa pessoa tão boa como amigo. Dividir histórias em comum, meio complicado de se entender, mas sem mesmo saber circulamos na mesma esfera no quesito "mulher". Em se tratando de música até que divergimos bastante, mesmo assim temos um gosto em comum por Pink Floyd, o que nos rende bons dias bebendo, semi-bêbados, à meia luz viajando nos solos de Sax estonteantes de Dick Parry ou nos solos de guitarra cheios de emoção do David Gilmour que rolam na vitrola (sim, somos adeptos do vinil). Se o pré vestibular me serviu para alguma coisa, com certeza foi para conhecer "o bacana". Desde o começo generoso, nunca perdeu a compostura. Excelente companheiro de bar, se bem que todos que descrevo aqui também o são. As vezes chego a pensar que a razão de uma amizade tão forte se dá justamente pelo local de gosto comum de todos: bar com sinuca e cerveja. Quem precisa de mais para ser feliz? Meu amigo bacana é de tempos, nem sempre pudemos ser próximos. Faculdade, trabalhos, estágios. Por um tempo pensei que não teria-o mais no meu ciclo de amizade. Mas assim como o mundo, a vida também dá as suas voltas. Justamente numa dessas voltas retomamos, sem eu nem lembrar como, a antiga e boa amizade mantendo-a desde então numa "constância crescente". Poucas palavras para explicar um laço forte e o carinho que tenho por esse cara mais que bacana.

O farto sensível

Esse cara é uma figura. Sensível de todas as maneiras possíveis, principalmente no que tange sua saúde sempre debilitada. Um cara muito esperto, tá sempre mal, o que faz as "gatinhas" ficarem com dó, peninha dele e irem todas visita-lo. Malandro ele... na verdade, eu desconfio mesmo que ele tenha algum problema psicológico, mas também não dúvido de que essa seja sua "arma secreta". Partes em parte, o sensível é um dos meus mais antigos amigo. Mesmo quando eu não sabia de sua existência ele já me admirava enquanto eu jogava vôlei na escola. Como eu costumo dizer, era um amor platônico que se tornou real. Um amor que só as pessoas que conhecem o real sentido de amizade poderiam entender. As coisas começaram por causa de um livro que eu ganhei para incentivar o peso da minha poesia. Claro, depois de um tempo larguei a poesia e comecei a escrever aleatoriamente, sem necessariamente considerar poema, conto, cantiga, cordel, seja lá o que for. O sensível é um exímio escrito, talvez o mais rebuscado dentre os que eu conheço que escrevem. Seu carinho e o valor que ele dá aqueles de quem gosta é algo que, se eu não tivesse vivido, com certeza não acreditaria que existe (ainda mais se fosse postado num blog). Por ele eu não só desenvolvi um carinho fraterno como também um sentido de proteção. Ou seja, o que atinge ele também me atinge, talvez em menor grau, pois jamais poderei sentir exatamente como outra pessoa, mas ainda assim o suficiente para me abalar.

O meio Chico.

Olhar penetrante. Dedos correntes no violão. "Toca mais uma do Buarque", ainda consigo ouvir as meninas pedindo. Rapaz talentoso e talvez a mais recente amizade, mas nem por isso fraca, muito pelo contrário, dividirmos mesas de bar com tanta frequência estabeleceu pontos muito firmes. Meio Chico, talvez uma versão atualizada do antigo, não que ele componha tão bem quanto dizem que o original compõe, mas no olhar fino sobre a vida e sobre as mulheres, nisso eu devo enfatizar, creio que o meio Chico é melhor que o Chico inteiro. Esse é o cara que te acompanha, te leva até em casa quando está muito tarde, um amigo que por vezes se anula e prol do outro.  Faça chuva ou faça sol, se for fim de semana e tiver uma grana, não há tempo que esteja ruim. É um barato parar na porta de casa e só brincar de musicar a lua. Quantas letras fizemos? Duas talvez... pouco, mas sem dúvida as melhores já feitas. E falo sem modéstia mesmo, o "entrosamento" é complementar, sua habilidade melódica sustenta minha falta de teoria musical. Meio Chico é um cara de faro apurado e olhar certeiro. Parece as vezes desafiar. Anda reto, boa conversa, só não o queira ver bêbado... faz biquinho pra contar história. As histórias são muitas, mesmo em tão pouco tempo, de qualquer forma fazer história me proporcionou mais que instrução, me proporcionou conhecer esse cara meio Chico.

sábado, 19 de março de 2011

Verso com verso: antes da execução

                             
O carrasco chorou                                        Pediu perdão
O condenado não rezou                                Sofreu solidão
A multidão se aglomerou                               Saíram de Plantão
A aprovação lhe sentenciou                          Deram total confirmação
Mas a guilhotina não funcionou                     A guilhotina disse "não"

sexta-feira, 18 de março de 2011

Os sofrimentos do jovem Werther

Promessas sempre e sempre repetidas
transformaram suas esperanças em certeza,
carícias ousadas açulam seus desejos,
acaba cativando completamente a sua alma, e ela flutua,
num estado de semiconsciência, num sonho de ventura incomparável.
Tendo atingido o mais alto grau de impaciente espera,
quando enfim estende os braços para chegar à realização
de todos os seus votos...
Aquêle a quem tanto amava abandona-a.
Ei-la Privada de tôdas as faculdades de sentir e pensar.
Vê diante de si um abismo; em tôrno, trevas e só trevas:
nenhuma perspectiva para o futuro, nenhuma consolação,
nenhum raio de esperança, porque ele a deixou,
aquêle unicamente em que ela se sentia viver.
Não vê mais o universo em tôrno, nem aquêles que poderiam
substituir o bem perdido; sente-se sozinha, abandonada para sempre.
E então, cega, alucinada pela angústia horrível que lhe constringe
o coração, precipita-se na morte que a espiava de todos os lados,
a fim de nela afogar todos os seus tormentos... - Johann Wolgang Von Goethe.

Mais um blog.

Muitos blogs existem por aí. Muitos outros com a mesma temática que este que acabo de "construir": poesia. Se você a partir de agora irá acompanhar as atualizações, muito obrigado. Mas, tão logo eu canse, desfaço este blog juntamente com todas as poesias que estão nele, afinal, existem tantas palavras disponíveis que seria um pecado não ter nada de novo para escrever.

Embora eu tenha dito que a temática daqui é poesia não garanto aos caros leitores que só postarei poesias. Ideias soltas, questionamentos diários, enfim, resolvi expor um pouco de mim, sabendo do quão limitadas são as postagens possíveis num blog, sabendo o quão limitado sou para me expor, sinto-me a vontade e seguro para construir a imagem que eu melhor julgar de mim mesmo.

Este é só "mais um blog", de conteúdo subjetivo, como todos os outros. Um blog que talvez não faça a mínima diferença no mundo, mas que acima de tudo é a forma que encontrei de me forçar a escrever, pelo menos temporariamente, isso porque eu não escrevo por escreve, eu preciso escrever. Que seja bom ou ruim, tanto faz.